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Tuitando? (Eu fora)

Luiz Carlos Merten

22 Dezembro 2010 | 13h03

Fui ontem à Livraria Cultura da Paulista para apanhar a encomenda que havia feito – o DVD de ‘Os Companheiros’ – para dar à Dóris, minha ex. Encontrei meu amigo Vilmar Ledesma, tomamos um café (na própria Cultura) e terminamos jantando, para colocar os assuntos em dia. Vilmar me contou que virou o maior tuiteiro do pedaço. Ele alimenta o twitter ou o blog de Caio Fernando Abreu e a publicação de inéditos do autor gaúcho, que o Vilmar guardava em pastas e gavetas, está bombando na internet. Só o twitter tem 12 mil ou 15 mil seguidores, sei lá. Espero que Vilmar esteja acessando esse post para atualizar os números e o próprio endereço na rede social. Achei interessante que ele tenha me contado isso porque há pouco, pesquisando não lembro o quê no arquivo do ‘Estado’, encontrei vários textos – de colunas – do Caio. Nossos caminhos se cruzaram algumas vezes – em Porto Alegre, em São Paulo –, porque Caio foi ligados a redações de jornais em que trabalhei (e trabalho), na Caldas Jr., no ‘Estado’. Mas não me lembro de haver alguma vez falado com ele. Dialoguei só pelos livros, e mesmo eles não foram muitos. “Morangos Mofados’, ‘Triângulo das Águas’ e a peça ‘O Homem e a Mancha’, livremente adaptada de Cervantes (o ‘Quixote’) e encenada por Luiz Artur Nunes com Marcos Breda. A literatura de Caio sempre me atraiu, na mesma medida em que me desconcertava, por uma precariedade que me parecia estar em choque com o refinamento da linguagem, o preciosismo das palavras. Os personagens em geral são perdidos em noites sujas, há essa vontade de dar o testemunho de uma geração que conheceu a revolução sexual e a repressão da ditadura, as drogas e o poder da maior droga de todas, a imaginação. Não estou sendo, de maneira nenhuma exato, porque teria de pesquisar, mas ele falava no escritor como fotógrafo do seu tempo. Sentia-se comprometido com as coisas que sua geração conheceu e foi uma geração que conheceu o existencialismo, o movimento beatnik, o hippie. Ele dizia não ter a preocupação com a contemporaneidade do tempo – seria uma coisa extra-literária – e o mesmo tempo a vivência faz com que sua obra seja percorrida/enriquecida pela experiência da contracultura. Quando vi ‘O Homem e a Mancha’, Caio já havia morrido (em 1996) e, portanto, era fácil ver na ‘mancha’ do título uma metáfora da aids, mas quando escreveu o texto ele ainda não sabia que era portador do vírus. Li em alguma parte que Caio, desde que se começou a falar em aids, ficou obcecado pelo assunto. Diagnosticado como soropositivo, ele de alguma forma se libertou. Dizia que o confronto com a aids e, a partir de certo momento, a expectativa iminente da morte o haviam liberado. ‘Serenado’, acho que era a palavra. Os amigos o precediam na morte e ele se perguntava por que ainda estava sobrando? Não é que eu achasse isso triste, mas compartilhei esse sentimento quando muita gente começou a morrer ao meu redor. Tive um colega do qual não era íntimo, aqui em São Paulo, mas quando foi confirmado que era soropositivo, as pessoas se afastaram, não por preconceito, mas por pudor. Acho que temiam ser invasivas. Ele próprio foi se isolando, mas eu passei a visitá-lo e fiz daquela visita semanal quase um ritual. Hoje em dia me pergunto se seu companheiro, e ele, não ficavam cheios daquelas visitas, mas a gente conversava muito, e falávamos sobre cinema, que era um interesse comum, e eu pelo menos adorava aquelas conversas. Sempre lamentei que um amigo querido de Porto Alegre tivesse se isolado para morrer, sem nunca compartilhar a dor que estava sentindo. Naquele caso, sim, havia preconceito, e dele próprio. Parecia que queria apressar a morte, por vergonha ou o quê. A aids discriminava. Era doença de gay, de promíscuo. Acho que foram Cazuza e Caio Fernando Abreu, dois Cs, que se rebelaram contra isso e forçaram a própria sociedade a encarar a aids. Tem uma frase dele que diz, senão me engano, que a condição humana é inocente. E outra em que nega que sua literatura seja ‘gay’. O que é isso? Autores homossexuais podem ter algumas características, como as mulheres e os autores considerados viris. Esses últimos de certa forma criaram um paradigma porque a própria sociedade é controlada pelos homens – mesmo que uma Dilma, eventualmente, consiga fazer história. Mas Ernest Hemingway é melhor do que Marcel Proust, ou que Virginia Woolf? Mesmo que o seja – digamos –, será por seus rompantes de masculinidade? Tudo isso é perigoso porque revela um desejo, mesmo que inconsciente, de colocar as coisas em nichos. O que existe é boa ou má literatura, bom ou mau cinema. Caio dizia que seu trabalho era sobre a condição humana e tudo, absolutamente, cabe na condição humana. Vou encerrar o post e buscar a pasta dele no arquivo. O último texto impresso – o restante do material já é digitalizado – é um inédito, era na época (1998), em que Caio relata suas andanças pela Europa. “De longe, o Brasil me dói.” De perto também e olhem que o País mudou, o mundo mudou. Todos mudamos.

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