Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Tuio, Khouri e a lembranca dos que foram

Cultura

Luiz Carlos Merten

29 Junho 2008 | 10h52

FARÖ – Muita gente me pergunta o que não tenho conseguido responder. Contei que Bergman foi descoberto no Brasil – e no Uruguai, por Homero Alsino Thevenet, crítico lendário como André Bazin, mas garanto que a maioria de vocês não sabe de quem se trata -, antes que na Europa e nos EUA. Na Suécia, ele foi sempre muito discutido e a própria diretora da Ingmar Bergman Foundation admitiu que seu sucesso era maior no exterior, exceto por momentos pontuais de sua carreira (a minissérie ‘Cenas de Um Casamento’, por exemplo), quando os suecos se renderam ao gênio de seu maior cineasta. A pergunta – como explico que Bergman tenha feito tanto sucesso no Brasil? Não estamos falando de blockbusters, bem entendido, mas gostaria até de saber a opinião de vocês. Considerando-se que o sucesso inicial de Bergman foi junto a uma intelectualidade paulistana – Walter Hugo Khouri, que era chamado de ‘sueco’, e seus amigos da Cinemateca Brasileira – fortemente impregnada de existencialismo e de Camus, Sartre etc, acho que aquela geração deve ter descoberto nele uma reação a Hollywood. Por volta de 1950, o cinema norte-americano, leia-se Hollywood, já era muito forte. Era uma época de muito puritanismo e hipocrisia, na qual o Código Hays estava vigilante e os filmes vendiam, com raríssimas exceções, o sonho americano. Nos filmes de Bergman – ‘Juventude, Divino Tesouro’, ‘Noites de Circo’ e ‘Mônica e o Desejo’ – era possível identificar uma preocupação pelo sexo, pelo casal, pelas indagações existenciais que deviam atender muito mais às angústias e necessidades daquela geração do que a da produção massificada de Hollywood. Às vezes tento me reportar à São Paulo quatrocentona dos anos 50, tão consciente do seu poder e da sua sofisticacao intelectual, com o surgimento da Bienal, da Vera Cruz e a instalação da indústria automobilística. Era tudo muito diferente da chanchada carioca, e logo em seguida o Brasil iria mudar, estou falando culturalmente, com Juscelino, Brasília, a Bossa Nova e, nos anos 60, o Cinema Novo (que teve um forte lado de reação a este ‘aburguesamento’ paulista). Bergman é um pouco ‘pré’ tudo isso e o fato de ele ser tão diferente não impediu a identificação. Aliás, mesmo aqui em Farö, há um tipo de vegetação – pinheiros e tal – que tem alguma coisa a ver com Campos do Jordão e Itatiaia, que Khouri chamava da ‘sua’ São Paulo (com a av. São Luiz), como Farö virou a Suécia de Bergman, mas isso foi mais tarde, nos 60. Viajei legal. Agora, tenho de parar. Pedi e vamos fazer uma visita muito especial. Ao cemitério em que Bergman foi enterrado. Vou fazer a minha peregrinação aqui na ilha de Bergman.