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Luiz Carlos Merten

02 Maio 2008 | 17h53

RECIFE – Encontrei aqui no Cine PE o Roger, de ‘Zero Hora’, e ontem mesmo lhe pedi notícias de meu amigo Tuio Becker, ex-crítico do jornal e que, nos últimos anos, vinha mergulhando no esquecimento provocado pelo Mal de Alzheimer. A mesma coisa, me disse o Roger. Hoje, no fim da manhã, ele chegou para mim, na sala de imprensa do festival, cheio de dedos e começou – ‘Sabe o nosso papo de ontem, sobre o Tuio?’ Intuí o pior. Meu amigo morreu, ontem à noite, em Porto Alegre. Tive de sair para um almoço do Cine PE, meio atordoado, confesso, e ainda tem este dente que não devia estar me doendo. Tuio Becker morreu! Imediatamente vieram-me lembranças. Tuio era de Santa Cruz, no Rio Grande do Sul, cidade de colonização alemã na qual nasceu meu pai. Os dois cursamos arquitetura – foi onde nos conhecemos, na Faculdade de Arquitetura da UFRGS – e o Tuio se formou arquiteto (eu larguei o curso), mas acho que nunca exerceu, porque a prioridade dele, como a minha, era o cinema e logo nos demos conta disso. Também compartilhamos o que foi meu primeiro emprego – ele já havia sido carteiro! -, no departamernto de audiovisual do Colégio Israelita-Brasileiro, criado pelo professor Ruy Carlos Ostermann. Preparávamos, Tuio e eu, material didático para utilização em sala de aula, sob a chefia do José Onofre. Naquela época, já era o início dos anos 70, viajávamos muito a Montevidéu para ver filmes proibidos no Brasil. Embora eles também estivessem sob uma ditadura, os uruguaios tinham mais cultura cinematográfica que os brasileiros e muitos filmes que a censura proibia aqui a gente via lá. ‘A Laranja Mecânica’, ‘Decameron’, ‘Estado de Sítio’… Nunca fomos de falar muito de grandes autores. Nosso amor comum era pelos pequenos grandes diretores – Riccardo Freda, Edward Ludwig, Joseph H. Lewis, Gordon Douglas. Muitas vezes, ainda na Faculdade de Arquitetura, saíamos para almoçar e íamos parar na minha casa, principalmente nos dias em que a Dona Cecília, minha mãe, preparava as melhores almôndegas do mundo. No caminho, comprávamos um garrafão de vinho, de dois litros, Sangue de Boi, e comíamos e bebíamos. Não sei como conseguimos sobreviver a tanto vinho ruim. Tuio morava numa pensão. Certa vez adoeceu e eu fui visitá-lo em casa. Não tinha nada para beber, mas havia aquele vidro de Biotônico Fontoura. Tomamos como se fosse vinho. Foi o pior porre da minha vida. Tenho muitas histórias sobre Tuio que quero contar. Já tentei – mas na hora de salvar, deu pane na sala de imprensa do Cine PE e eu perdi tudo. Vim a uma lan house aqui perto, em Boa Viagem, mas ela fecha daqui a pouco, às 6. Confesso que me baixou uma tristeza infinita. A gente envelhece, os amigos vão morrendo… Sempre tive a maior dó de que Tuio tenha sofrido de Alzheimer, afundando no esquecimento. Mais de uma vez fantasiei – será que em algum compartimento, lá no fundo do inconsciente dele, permaneciam as lembranças de cinema? Meu amigo morreu. Cara… ca!