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Luiz Carlos Merten

03 Maio 2008 | 10h26

RECIFE – Fui reler o post anterior, sobre meu amigo Tuio Becker, e estava cheio de erros de digitação. Corrigi, porque ninguém, muito menos o Tuio, merece uma coisa mal-escrita. Bruno diz que eu sou proustiano, porque volta e meia pego a madeleine da vez e viajo nas lembranças. É verdade. Ontem à noite, quando fui dormir, li um pouco, desliguei a luz e fiquei me lembrando do tal vinho ruim, sangue de boi. ERA ruim, mas agora faz parte da minha convivência folclórica e divertida com o Tuio. Até o sabor ficou diferente na memória. Com o sabor do vinho vieram tantos amigos desaparecidos – o Neco, Paulo Barth, a Ingrid, que foi morar no Chile e eu nunca mais encontrei, a Nilce, irmã dela, que foi para Barcelona. Será que, se a gente se rencontrasse, conseguiria retomar um pouco daquela antiga convivência, ou será que é irremediavelmente passado? Vou contar duas historinhas rápidas. Uma vez pegamos o bonde e fomos, Tuio e eu, ver ‘Bonequinha de Luxo’, do Blake Edwards no Cine Teresópolis, no tempo em que Teresópolis parecia o fim do mnundo. Sempre adorei o filme do Edwards, e gostei do partido dele, que até hoje não sei se era pressão do Código Hays ou uma coisa autoral, de não abrir que Audrey Hepburn faz uma ‘demi mondaine’ (uma prostituta?) e George Pepard, um gigolô. É até hoje o que me encanta no filme, essa coisa meio antiga que ele tem (e que encontro em parte no ‘Bodas de Papel’, tão detestado pelos meus coleguinhas aqui no Recife). Eu viajava no filme – a virilidade de Peppard, a delicadeza de Audrey, que dupla! -, quando o Tuio, de repente, me deu um cotovelaço. ‘Pára de suspirar!’ Ele dizia que quando eu gostava muito do filme a respiração tomava outro ritmo e que seria possível dizer o que eu achava de qualquer filme só a partir daí. Será? Outra vez, em pleno inverno gaúcho, frio de rachar, fomos a pé do Bonfim até a Azenha para ver ‘Ligações Amorosas’, do Vadim, no antigo Cine Roma. A gente falava e saía aquele gelo da boca, aquiele bafo. Íamos numa nivem. Não sei mais o que conversávamos, mas sei que a gente ria muito. Dois cinéfilos bobos, meio crianças grandes, tenho de admitir, no retrospecto. Tuio pelo menos uma vez seguiu meus pasos. Quando saí da ‘Folha da Manhã, num episódio muito controvertido que terminou em demissão coletiva, na saída do professor Ruy Carlos Ostermann, ele entrou no meu lugar. Depois, foi para ‘Zero Hora’, na vaga do Goida (Hiron Goidanich). O fato de ter permanecido em Porto limitou muito a que o Tuio se tornasse mais conhecido, nacionalmente. Ele era bom crítico, sem dúvida – aquela nossa geração em Porto, modéstia à parte… -, mas, por uma questão de estilo, era ferino, demolidor, tinha um senso de humor do cão. E o Tuio sempre soube mais sobre filme trash do que qualquer pessoa de que me lembre. É uma pena que a doença o tenha atingido antes que ele pudese entrar na era dos blogs. Ai se o filme fosse ruim! Tuio era que nem Ringo, ou Django – não perdoava. Sempre tive a impresão de que, se o Tuio tivesse ido para São Paulo, e fosse para a ‘Folha’, o macaco Simão nem teria existido.