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Luiz Carlos Merten

01 Junho 2010 | 10h59

Michael Patrick King é o diretor de ‘Sex and the City 2’. Não importa se o cara é gay. O filme dele é. ‘Sex 2’ começa com um casamento entre homossexuais. A oficiante da cerimônia é Liza Minnelli – quem mais? (Bem, poderia ser Barbra Streisand.) Liza é a primeira de algumas participações divertidas no filme. Miley Cyrus, Penélope Cruz (a  melhor). Na história de ‘Sex 2’, as amigas estão em crise. Sarah Jessica está achando o marido acomodado demais, Kim Catrall está sofrendo os efeitos da menopausa e aquela mais ordinária, no sentido de comum, de que não lembro o nome, vive à beira de um ataque de nervos, com a filha que não para de chorar e a babá de seios perfeitos que chega para desestabilizar seu casamento. Face a tantas crises, uma mudança de ares se impõe. O quarteto embarca para Abu Dhabi. Antes que você pense que o emirado pagou o filme, como peça promocional – não! ‘Sex 2’ foi filmado no Marrocos. Aquele super-hotel é em Casablanca. Não sobra pedra sobre pedra de Abu Dhabi. O país vira emblema do que há de retrógrado no fundamentalismo islâmico. Só porque Kim Catral pega no pinto do sujeito em público vai parar na cadeia, ameaçada de expulsão. Tem cabimento? O filme, aliás, é pródigo em piadas de p… (a versão de três letras é mais direita; lembro-me de uma entrevista de Caetano, dizendo que era ridículo chamar p… de pinto) e seios. No hotel das garotas hospeda-se a delegação australiana de rúgbi. Os rapazes vão para a piscina, após o treino. Todos de sunga, caem na água. Zoom nas respectivas genitálias. kim Catrall passa ‘nervoso’, tanto mais porque se sente acabado. O que os olhos veem não lhe desperta nada embaixo. (Estou repetindo o diálogo do filme.) A babá também se molha dando banho na menina. O seio fica exposto. Corte com detalhe do mamilo. ‘Sex 2’ vida atender a todos os públicos, há que ter um pouyco de safadeza para o público ‘straight’, mas espere pela última cena da babá. Caçadas pelos fundamentalistas, nossas pobres heroínas correm no interior do mercado e são salvas por nativas de chador. Elas formam um clube privado. Reúnem-se para ler e trocar ideias. A subversão hoje toma novas formas. Vocês pensam que é para discutir liberdade e democracia? Bem, não deixa de ser. Para muita gente, democracia, no mundo globalizado, virou a liberdade de escolher o que a propaganda já condicionou as pessoas a desejarem. Debaixo do chador, as heroínas islâmicas são todas devotas de Santa Jessica. Exibem as últimas coleções dos estilistas mais famosos de Nova York. É de consumismo que se trata. Os olhos de Jessica bruilham de orgulho (ou desejo). Mas há uma mensagem ‘positiva’. O mundo, por mais  bem-vindos que sejam os signos do consumo, como indicadores do poder e do dinheiro, não vale o sofá onde Jessica e o marido veem filmes antigos (clássicos como ‘Aconteceu Naquela Noite’, de Frank Capra). ‘Sex 2’ é menos do que insignificante, mas permite uma leitura curiosa. Sarah Jessica é divina ou horrorosa, depende do ponto de vista. Usa aquele cabelo frisado (é moderno?), as pernas são gambitos, fininhas de dar dó. Kim Catrall está com um rosto meio estranho – é melhor em ‘O Escritor Fantasma’ -, mas pelo menos expõe as coxonas, embora na cena de sexo na praia, finalmente!, a bunda do arquiteto dinamarquês pareça mais atraente para o diretor. De volta a Jessica – ela tem aquela cara de cavalo. Assume, ou então é Michael Patrick King que a expõe – na cena em que está se maquiando para brincar com fogo, saindo com o ex-namorado que encontrou por acaso. Seja por efeito de deformação do espelho ou o quê, a cara de Jessica vira um retângulo. me lembrei da velha hollywood, uma história que Elia Kazan conta no livro com a entrevista que deu a Michel Ciment. Ele havia dirigido uma cena emotiva com Katharine Hepburn em ‘Mar Verde’. Estava orgulho de si (e da atriz). Foi chamado ao escritório do executivo do estúdio, que lhe disse que as lágrimas da atriz não estavam escorrendo direito. Kazan tentou contestar, mas o cara não quis nem saber de sinceridade nem de emoção. ‘Corrija!’ É um sinal dos tempos. Uma cara daquela da Jessica não passava pelo teste do glamour da Hollywood antiga.