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Luiz Carlos Merten

16 Maio 2008 | 13h42

CANNES – Saí do melodrama revisto por Desplechin e caí em outra revisão, a do melodrama criminal – do policial – à Simenon, por Nuri Bilge Ceylan.O filme é ‘A Mulher Infiel’, sem Chabrol (nem Michel Bouquet e Stéphane Audran), mas igualmente forte, em outro sentido. Motorista de um político é cooptado pelo chefe para assumir a autoria de um atropélamento (com vítima) cometido pelo outro. O cara vai preso, o político faz sexo com sua mulher e o filho flagra a mãe na cama com o outro. A mulher, ainda por cima, enlouquece de desejo e vai correr atrás do outro, que a escorraça. A família desintegra-se, há um crime, mas é bom não ir adiante para não tirar a graça. Gostei muito da narrativa, dos atores. Ceylan gosta de integrar a natureza em seus filmes. Lembram-se da neve em ‘Climats’? Aqui há sempre um clima de tempestade, o que confere ao filme uma luz – aquela coisa de últimos raios de sol enquanto as nuvens sombrias vão se fechando – que não é só ‘plástica’, mas é, como se dizia antigamente, quando se pensava o cinema`como metafísica (filosofia em geral) que é uma luz ontológica, que remete à infelicidade profunda do homem, ao próprio pecado original. Muito legal. Agora, vocês me dão licença. Vou ver um pouquinho a montée des marches e correr para a Sala Debussy, que mostra, daqui a pouco, o novo Woody Allen. Compreendo a inveja de vocês e sei que é no bom sentido, mas acho que agora estou deixando vocês mais invejosos ainda.