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Tudo em família (1)

Luiz Carlos Merten

16 Maio 2008 | 13h30

CANNES – Tentei postar duas ou três vezes comentrários sopbre filmes que vi hoje e me deixaram chapado, mas na hora de salvar perdia os posts. Cheguei a fazer em Word, mas o problema é que estou usando os computadores do festival e raramente volto à máquina em que produzi o texto. Se tivesse sido mais esperto teria me enviado um e-mail. Enfim, vamos tentar mais uma vez. Os dois filmes que vi pela manhã foram o de Arnaud Desplechin, ‘Un Conte de Nöel, que muitos coleguinhas brasileiros detestaram, e ‘Three Monkeys’, do turco Nuri Bilge Ceylan, que havia perdido ontem. Os dois fazem a revisão do cinema de gêneros para falar de família. Desplechin revisa o melodrama por meio de uma estrutura romanesca, que subverte pela modernidade de suas mi-en-scène. No filme dele, a amatriarca (Catherine Deneuve) está morrendo de câncer, a família se reúne para o Natal e para ver se existe algum doador compatível para o transplante que ela precisa fazer. Os filhos se odeiam e até o aparente vilão da história, Mathieu Amalric, que poderá salvar a vida da mãe, a trata como a uma esttranha. Diz ‘a mulher de meu pai’, em vez de mãe. Bobagem, mas o Dia das Mães ocorre no domingo, dia 25, na França e Cannes está embandeirada para festejar. Não na casa (fictícia) de Catherine Deneuve. Me lembrei de Douglas Sirk, cujo sonho era o melô filtrado pela tragédia grega, na qual tudo se passa em família, e no mesmo lugar. Silvana Arantes, que me conhece bastante, me perguntou quando cheguei na coletiva (queria ver a Deneuve, mas tinha outro filme tive de ir embora) – ‘Choraste muito?’ É engraçado, mas a Silvana e a Neusa Barbosa falam sempre gauchês comigo. Retruquei – ‘Como é que tu sabes?’ E ela – ‘Porque o filme tem a tua cara, ora.’ Realmente, adoro o Desplechin e gosto do despudor como ele, superintelectualizado, flerta com o cinema comercial mais brega. Numa cena, a família toda se reúne diante da TV para ver ‘Os Dez Mandamentos’ e a cena que passa é justamentre a da abertura do Mar Vermelho. Antes de passar para o próximo filme – disse que dois me impressionaram -, quero falar de Catherine Deneuve, no filme e na vida. Catherine virou uma senhora, uma matrona. Mas, Deus!, ‘madame’ – ela está na capa da revista com este nome – é um mito. Catherine engordou, é o peso da idade, mas continua linda. E com o tempo ela adquiriu a boca amarga que é uma característica de Jeanne Moreau e ficou melhor atriz do que já era. Catherine contracena com a filha, Chiara Mastroianni, que tem um belo papel. Chiara conseguiu reunir o melhor do pai, e da mãe. Nem me havia dado de que são mãe e filha, só depois me caiu a ficha. Na trama de Desplechin, Catherine desconfia da nora, que é Chiara. Gostei demais!