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Tsai e Coixet, os ultimos

Luiz Carlos Merten

23 Maio 2009 | 06h44

CANNES – Acabo de assistir ao ultimo filme da competicao, `Visage` (Rosto), uma encomenda do Museu do Louvre para Tsai Ming-liang. Sou do tipo que acha que o filme deve se explicar por si mesmo e eh bobagem pedir explicacao para o autor. Um monte de gente correu para a coletiva para pedir a Tsai que forneca as chaves para seu filme, uma `desconstrucao` ah base de planos longos que me lembrou, quase 30 anos depois, `A Idade da Terra`, de Glauber Rocha. Seria mais a idade do cinema – e da cultura – contando a rodagem de um filme dentro do filme, ambientado num parque, onde um veado (um cervo) se perde em meio a espelhos, e nos subterraneos do museu, onde Jean-Pierre Leaud e Lee Kang-sheng, o ator fetiche do diretor, se envolvem um com Laetitia Casta, no papel de `Salomeh`, e outro com Fanny Ardant, como a produtora que tenta preservar o velho ator ah beira de um ataque de nervos. Tsai disse que se inspirou em Truffaut, `Os Incompreendidos`, mas a ligacao eh nebulosa, para dizer-se o minimo. Por mais belo que `Visage` seja de olhar, com seuas figurinos assinados por Christian Lacroix, – e ateh ouvir, jah que Laetitia dubla varias cancoes -, os 138 minutos pesam e as obsessoes do cineasta (a agua, a busca da graca, o homossexualismo masculino, com uma cena de sexo oral entre Kang-sheng e Mathieu Amalric) me pareceram entrar meio a machado, para justificar a autoria. Vai, Tsai, e que o proximo filme nos seja mais leve (ou estimulante). Ontem ah noite, foi a vez de Isabel Coixet. Os coleguinhas espanhois detestaram Almodovar e a maioria deles me dizia – `Aguarde a Coixet`. `O Mapa dos Sons de Toquio` comporta variados niveis de leitura e, se naquele filme das palavras, eram elas que forneciam as ferramentas para a diretora falar de amor e sexo, de relacoes em suma, aqui esse papel cabe ao som. Na trama, um poderoso empresario japones quer eliminar o homem (espanhol) por quem sua filha era apaixonada (e por quem se matou). Seu assessor contrata uma profissional, mas ela se envolve com ele em cenas de, digamos, alta voltagem erotica, um eufemismo para dizer que o sexo rola solto num quarto de motel em formato de vagao de metroh, em que ambos dao vazao a suas fantasias. Neuza Barbosa achou as tais cenas de sexo degradantes, porque as fantasias sao muito masculinas. Eu confesso que achei as mais excitantes do festival e, talvez, do cinema nos ultimos tempos, porque Sergi Lopez e Rinko Kikuchi, a par da ginastica sexual – cada cena parece saida do kama-sutra – possuem uma quimica que funciona. Achei o maximo que uma mulher tenha construido essa fantasia que nunca vi. Sergi faz sexo oral em Rinko e emerge do meio das pernas dela para tirar, em primeiro plano, o pentelho preso no dente. Essa Isabel Coixet nao eh mole, mas meus amigos espanhois que me perdoem. No limite, nao gostei do filme e, mesmo que `Los Abrazos Rotos` nao seja o maior Almodovar, eh melhor, sim.

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