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Luiz Carlos Merten

28 Novembro 2009 | 11h43

Losey não era um teórico, esclarece Michel Ciment na apresentação de ‘L’Oeil du Maitre’. Seus textos não foram produzidos para publicação. Na maioria dos casos, são notas de produção que ele redigia para orientar colaboradores ou responder a suas dúvidas. Revelam uma singular capacidade de reflexão e, em muitos casos, iluminam a obra e algumas das polêmicas que provocou. O único ensaio que Losey realmente fez para publicação foi sobre Bertolt Brecht, de quem foi próximo. Tinha o mesmo título, ‘O Olho do Mestre’, que Ciment adota como homenagem no livro com a marca Institut Lumière/Actes Sud. Existem dois textos sobre ‘O Assassinato de Trotsky’ – notas de produção e uma carta endereçada a Romy Schneider, que faz Gita, a companheira de Jackson (Delon), o assassino de Trotsky. Romy está cheia de dúvidas, não relativas apenas à composição de sua personagem. Ela devbe ter manifestado a Losey sua preocupação pela própria filmagem. Ele esclarece que a manifestaçã no filme será filmada na Catânia, que a casa de Trotsky – o bunker – estava sendo reconstitído em Roma, a 20 minutos do estúdio do produtor Dino De Laurentiis, mas ainda tem dúvidas quanto à cena decisiva da tourada, que tanto poderá ser filmada na Espanha quanto no sul da França. Não sei onde Losey terminou filmando, o que sei é que ele e seu extrardinário diretor de arte, Richard MacDOnald, fizeram um trabalho impressionante de recriação do bunker, que tive oportunidade de visitar na Cidade do México. Havia visitado a casa de Frida Khalo, transformada em museu, e o bunker é próximo, dá para ir a pé. Lá fui eu. É um lugar lúgubre e sinistro. Me produziu o mesmo incômodo que tive ao visitar, em Berlim, a tiopografia do terror, uma exposição no próprio subsolo que abrigava uma central de torturas da SS. Fiquei paralisado, no escritório, com a picareta, até hoje sobre a mesa que deve ter pertencido a Leon Davidovitch e com o sangue de respingou de sua cabeça ao ser por ela atingido, projetando-se na parede. Não sei o que fizeram, ou se fizeram, para conservar até hoje, quase 70 anos, aquelas manchas. Losey, marxista, nunca foi stalinista. Seus escritos sobre Trotsky destacam sempre o grande homem – que ele teria sido, mesmo se tivesse morrido em 1917, um pensador revolucionário da mesma importância de Beliski, Herzen e Bakunin. Sua importância só foi crescendo, como chefe da oposição, entre 1923 e 29. E, depois, o exílio, as perseguições, a primeira tentativa de assassinato (por Siqueiros, o grande muralista mexicano), que levou Trotsky ao isolamento no bunker. Lembro-me de um texto de José Onofre sobre ‘Cerimônia Secreta’ em que ele analisava a obsessão de Losey por portas que se fechavam e que viravam o centro de sua mise-en-scène (claustrofóbica) naquele clássica. A claustrofobia está na Paris irreal de ‘M. Klein’ – Losey viveu oito anos na França, conhecia os lugares, exigiu de MacDonald uma recriação perfeita e, mesmo assim, não exisrte Paris mais fantástica e estilizada do que a habitada por Alain Delon e seus fantasmas. Está (a claustrofobia) no bunker de Trotsky, mas no mundo dos pensamentos em que todos os personagens (Jackson, Gita) estão aprisionados. Burton disse certa vez, acho que em sua autobiografia, que Losey nunca esperou dele que criasse um Trotsky que realmente tivesse vivido. O objetivo também nãp era criar um afresco histórico amplo. O que importa é a interpretação freudiana, a história pessoal, íntima e complexa, não só da vítima, como do carrasco. Na carta a Romy Schneider, Losey diz uma coisa muito interessante. Ele não acha que Gita seja muito inteligente e acrescenta que a sexualidade é decisiva em sua obsessão. LOsey define Gita como ‘obsessiva’ e acrescenta – na verdade, o roteiro de ‘O Assassinato de Trotsky’ é a soma de diversas obsessões. Me deu a maior vontade de rever o filme, quem sabe a parrtir daí. Mas gosto tanto de Losey – perdese tanto tempo com autores menores – que fico contente só de saber que o Mauro tenha gostado, e se sentido estimulado, por ‘O Assassinato de Trotsky’. Não quero terminar o post sem fazer referência a Valentina Cortese, que faz a mulher de Trotsky, Natalya. Não me recordo se ainda está viva, mas com certeza deve estar berando os 90. Atriz italiana, casou-se com Richard Basehart, o ‘Louco’ de ‘A Estrada da Vida’, de Federico Fellini, o que a levou a Hollywood, onde filmou com Jules Dassin (‘Mercado de Ladrões’), Joseph L. Mankiewicz (‘A Condessa Descalça’) e Richard Fleischer (‘Barrabás’). Na Itália, seu grande papel foi com Antonioni (‘As Amigas’), mas ela também fez ‘Julieta dos Espíritos’, com Fellini. Ela é martavilhosa como Natalya, dando sustentação ao marido e silenciosa testemunha apreensiva quanto à tragédia iminente.