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Cultura » Triver Polanski?

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Luiz Carlos Merten

11 Junho 2010 | 09h47

Já disse que fui rever ontem ‘O Escritor Fantasma’. Antes da sessão, entrei na Livraria Cultura do Shopping Bourbon e vi que o livro de Robert Harris foi lançado no Brasil somente como ‘O Fantasma’, o que faz sentido, porque no próprio filme Ewan McGregor se apresenta várias vezes como o ‘ghost’ do polítco interpretado por Pierce Brosnan e só quando as pessoas estranham ele acrescenta o ‘writer’. Ele é o fantasma, si m, e isso determina a curva dramática (do filme do personagem). Confesso que tenho um sentimento ambivalente em relação a esse Polanski. Gosto do filme desgostando, o que encerra um paradoxo, para mim mesmo. ‘O Escritor Fantasma’ é muito bem feito, brilhante até, embora eu tenha a sensação ambivalente de que é um filme sem alma. Por que será? O filme me lembra muito ‘O Inquilino’. McGregor, como o próprio Polabnski em seu outro filme, já começa condenado quando entra no universo que não é o seu. Lembrem-se que McGregor é agredido logo que aceita a missão. Polanski filmou em Babelsberg, como em ‘O Pianista’. Seus cenários (décors) possuem, pelo menos para mim, uma curiosa dimensão onírica e eu fico em dúvida sobre o que é locação e o que é estúdio. Logo no começo, o avião voa numa direção, há um corte, vem outro avião menor em direção contrária e McGregor dorme no interior da embarcação. Quando sai para o convés, o mar está revolto, mas nada daquilo me parece muito ‘real’. É como se o personagem estivesse meio acordado meio dormindo e o filme inteiro fosse um pesadelo – o que não deixa de ser. Na verdade, nada é o que parece em ‘O Escritor Fantasma’ e é esse mundo vacilante, ambivalente – o da política, da espionagem, das finanças -, que Polanski escolhe representar. Já disse que tenho um imenso prazer estético assistindo ao filme – Olivia Williams é maravilhosa -, mas, no limite, não sei se gosto de verdade. Talvez tenha de ‘triver’ ‘O Escritor Fantasma’, o que me parece, antecipadamente, que não será nenhum sacrifício.

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