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Luiz Carlos Merten

15 Maio 2010 | 14h16

CANNES – Faço o impossível aqui na Croisette para assistir ao maior número possível de programas da seção Cannes Classics. Depois de ‘O Beijo da Mulher Aranha’ e ‘O Leopardo’, fui ver à tarde ‘Tristana’. O filme de Buñuel foi restaurado e está sendo exibido no quadro de uma celebração artística franco-espanhola. A exibição foi na sala do 60.o aniversário, com direito à presença dos ministros da Cultura da França e da Espanha. Ela foi ótima. Diz que chegou ansiosa, no quadro dessa crise econômica que assola e Europa e não para de produzir manchetes de jornais. Estava deprimida e aí – foi ontem à noite – viu passarem Alain Delon e Claudia Cardinale e pensou consigo que a salvação da Europa está na sua cultura. Para prestigiar a exibição de ‘Tristana’, a Espanha mandou uma delegação de atores e diretores – Fernando Trueba, Alex de La Iglesia, Bigas Luna, Pedro Almodóvar, Marisa Paredes, Rossy De Palma etc. Pedrito fez a apresentação do filme e tudo isso demorou muito, o que deve ter sido o motivo para que o diretor artístico Thierry Frémaux deixasse de conceder a palavra a Catherine Deneuve, que veio prestigiar a sessão. Ela estava linda, com aquela cabeleira que cintila como ouro. No final, aplaudida de pé, pareceu se emocionar – La Deneuve, que, em geral, costuma ser fria como gelo. O filme tem aquele final maravilhoso, quando a narrativa retrocede,, uma invenção muito interessante de linguagem. Saí pensando como teria sido para Catherine se rever, não digo pelos anos transcorridos, mas pela lembrança dos que se foram, a começar por Buñuel. Delon deu uma entrevista a ‘Nice Matin’ dizendo que reviu ‘O Leopardo’ em homenagem a Visconti, que foi seu mentor, mas não gosta de assistir a seus grandes êxitos porque são muitas recordações dolorosas. No caso de ‘Il Gattopardo’, citou, além do próprio Visconti, Burt Lancaster e Serge Reggiani. Às vezes acho que seria bom vir a Cannes só para assistir à programação de Cannes Classics. Rever todos esses grandes filmesm, em cópias impecáveis, almoçar e jantar em alto estilo, um bom vinho. Chega, Merten. Preciso correr para mais uma sessão da competição. O filme agora é do Chad, o primeiro desse país a concorrer em Cannes. Independentemente de ‘Un Homme Qui Crie’ ser bom, o diretor Mahamad-Saleh Haroun já fez história.

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