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Cultura » Tributo ao ‘Rei’

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Luiz Carlos Merten

17 Novembro 2010 | 13h40

Começou segunda e, portanto, já chego defasado ao assunto, mas o TCM está promovendo uma programação especial comemorativa do cinquentenário da morte de Clark Gable. O astro que era chamado de ‘Rei’ em Hollywood morreu em 1960, logo depois de concluir sua participação em ‘Os Desajustados’, de John Huston. O TCM lembra a data exibindo filmes. A série começou na segunda, precedida pelo documentário ‘Tall, Dark and Handsome’, ao qual se seguiu a exibição de ‘…E o Vento Levou’, creditado a Victor Fleming – embora vários diretores tenham se revezado durante a realização –, no qual o Rei criou um dos personagens emblemáticos de sua carreira, Rhett Butler. Ontem, foram exibidos ‘O Grande Motim’, a primeira versão, de Frank Lloyd, Oscar de melhor filme de 1935 – Gable recebera o prêmio de melhor ator, um ano antes, por ‘Aconteceu Naquela Noite’, de Frank Capra –, e ‘Mogambo’, do mestre John Ford, em que se divide entre a loira (Grace Kelly) e a morena (Ava Gardner). A programação de hoje começa daqui a pouco, 14 horas, com ‘Manhattan Melodrama’, de W.S. Van Dyke, citado por Michael Mann em ‘Inimigos Públicos’, e prossegue com ‘Mares da China’, de Tay Garnett, às 15h35, e ‘A Cidade do Pecado’, de novo de Van Dyke, às 17h05. Amanhã, serão exibidos ‘Piloto de Provas’, de Victor Fleming, às 14 horas; ‘Os Desajustados’, o cult de Huston, às 15h55; e, para encerrar, será reprisado o documentário ‘Tall, Dark and Handsome’, às 18h05. Ele era alto, moreno e bonito, mas não esse tipo de beleza ‘tanquinho’, de garotos meio andróginos que fazem boquinha e a gente vê hoje em todo tipo de propagandas, de cuecas a Coca-Cola. Clark Gable tinha uma beleza que não se enquadrava no modelo ‘clássico’. Era viril, tinha um sorriso provocador (ou cínico) e tudo isso destoava do padrão da época, mas ajuda a entender por que, rapidamente e após um início em produções de ínfima categoria, ele virou ‘o’ astro. Gable estudava medicina quando resolveu que seria ator. Para financiar o sonho, trabalhou até como lenhador, o que deve ter ajudado a definir sua musculatura. O talento, ele já devia ter, mas a técnica veio por meio de duas influências viscerais – sua primeira mulher, Josephine Dillon, professora de dicção, aprimorou-lhe a voz e Lionel Barrymore ensinou tudo o que ele precisava saber sobre como atuar, durante o período em que o futuro Rei integrou o elenco fixo de sua companhia, em Nova York. Como galã, além de ter sido casado com Carole Lombard – e ela morreu num acidente aéreo, durante a guerra, deixando-o viúvo –, Gable teve nos braços algumas das estrelas mais brilhantes do firmamento do cinemão, de Greta Garbo a Marilyn Monroe, passando por Jean Harlow, Norma Shearer, Gene Tierney, Yvonne De Carlo, Eleanor Parker etc. Conta a lenda que usava dentadura postiça e ela se movia em sua boca, o que teria provocado cenas constrangedoras nas cenas de beijos com a sexy Marilyn. Nem isso empanou-lhe a fama, mas uma biografia, surgida em 1993, tentou retirar de Gable a auréola de super-macho. Escrita por Jane Ellen Wayne, conta que ele foi gigolô e os anos de prestação a mulheres mais velhas, ricas e pouco exigentes o transfrormaram no pior amante da cidade dos sonhos. Ellen chega a citar uma declaração que teria sido prestada por Carole Lombard, dizendo que o marido não era bem ‘rei’, talvez fosse uma ‘rainha’. Essa história fortalece outra, segundo a qual ele fez sexo com um ator para conseguir um papel. George Cukor sabia disso e o infernizava no set de ‘… E o Vento Levou’ e esse teria sido o verdadeiro motivo pelo qual foi despedido pelo produtor David Selznick. Os cães ladram, a caravana passa, como diria Ibrahim Sued. Gable é puro carisma em ‘The Misfits’. Foi seu último filme e também o derradeiro de Marilyn. Um complemento indispensável à visão de ‘Os Desajustados’ é o retrato que o próprio diretor faz dos bastidores da filmagem em sua autobiografia, ‘Um Livro Aberto’.