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Luiz Carlos Merten

06 Junho 2011 | 19h18

Em 1964, Walter Hugo Khouri reuniu duas das mais belas mulheres do cinema brasileiro e fez ‘Noite Vazia’, com Norma Bengell e Odete Lara no papel das putas que Gabriele Tinti e Mario Benvenuti levam para a garçonière, para uma noitada de sexo. Norma mantém a aura de garota romântica e vira a companheira, por uma noite, de Gabriele Tinti, que também não perdeu a ternura nem se travestiu do cínico pragmatismo de Mario Benvenuti. Esse último diz alguma coisa como que Odete é a mulher de número 500 (estou chutando) que ele leva para aquele apartamento. Ela acusa o golpe e devolve – ele é o número 3 mil dela. Khouri já havia feito ‘Na Garganta do Diabo’, com Odete Lara, na sua fase de Ingmar Bergman, nos anos 1950. Vestiu-a de negro, usou-a estática, hierática, mas a beleza do rosto e a expressividade dos olhos já eram impressionantes. Em ‘Noite Vazia’, ele substituiu o coque, o cabelo puxado para trás, por um penteado que ressalta a dureza das linhas do rosto de Odete. Ela faz a puta leonina, que não tem ilusões sobre o que representa para os homens. Ele querem sexo, ela realiza as fantasias deles por dinheiro. ‘Noite Vazia’ foi o filme da mudança para Khouri. Seu modelo deixou de ser Bergman e ele ‘adentrou’ na estética de Michelangelo Antonioni e Alain Resnais. É curioso, mas os dois, o italiano e o francês, também foram as fontes (com Graciliano Ramos) para o Nelson Pereira dos Santos de ‘Vidas Secas’. Justamente Nelson. Odete já vinha fazendo todo tipo de filmes quando Nelson fez dela a Guigui de ‘O Boca de Ouro’, que adaptou de Nelson Rodrigues, com Jece Valadão. Aquele vestido de bolinhas incentivou a paudurescência – perdoem a definição, mas é uma invenção de meu ex-editor, Evaldo Mocarzel – de toda uma geração que foi jovem no começo dos anos 1960. O vestido parecia costurado no corpo e Odete tinha mais curvas do que a estrada de Santos. ‘Mostra os peitinhos’, pedia o cafajeste rodriguesiano. Odete seguiu fazendo grandes papeis, em grandes filmes – ‘Copacabana Me Engana’ e ‘Rainha Diaba’, de Antônio Carlos Fontoura; ‘O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro’, de Glauber. Na vida, era tão avassaladora quanto na tela. Vivia pelo e para o sexo. Um dia, descobriu que caminhava na beira do abismo. Estava vazia. Salvou-a o budismo. Odete narrou sua odisseia pessoal em ‘Eu Nua’, um livro corajoso e revelador. Largou o cinema – ocasionalmente, faz um papel numa novela do amigo Gilberto Braga, mas o naturalismo global nunca foi seu registro preferido (ou mais acertado). Não vou dar nome aos bois, até porque são pessoas, não touros selvagens, mas fiquei chocado quando soube que o curador de um grande festival desconsiderou uma homenagem especial para Odete Lara porque achava, o pobre, que ela não era, nunca foi, uma verdadeira atriz. Pois eu sustento que foi. Não só uma atriz, mas um mito, um ícone da arte da representação no País e um formidável objeto de desejo. Pode ser que Odete nunca venha a receber esse grande prêmio, mas no meu imaginário – e no de muita gente – ela permanece intocada e intocável. O corpo de Odete Lara, a voz de Odete Lara. Uma voz meio rouca, inconfundível. Escrevo e a ouço na minha lembrança. Que o ciclo do Centro Cultural Banco do Brasil forneça, para quem ainda não a ama suficientemente, as chaves para a descoberta dessa figura tão extraordinária da história do cinema brasileiro.