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Cultura » Três faces do terror

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Luiz Carlos Merten

14 Maio 2010 | 12h39

CANNES – Por onde começar, sobre as atividades de ontem e hoje? Pelo princípio – Sônia Braga vestiu seu modelito pomba gira e, de vermelho profundo, baixou em Cannes Classics, para a abertura oficial deste ano, com a versão restaurada de ‘O Beijo da Mulher Aranha’. Acompanhavam-na o diretor Hector Babenco e o produtor David Weisman, mas Sônia, exuberante – e cheia de curvas – mostrou que ainda tem bala no seu cacife. Havia visto uma foto dela bem acabada. Renasceu, e como mulher aranha, embora o filme, propriamente dito, seja William Hurt. Não me lembrava da atuação dele, mas o Oscar foi merecido, com certeza. E o Raul Julia, como era bom. Gostei do filme, embora a produção tenha me parecido bastante precária, inclusive em relação a coisas que Babenco fez depois. Hector disse que, há 25 anos, desembarcou na Croisette com seu filme adaptado de Manuel Puig – sem saber como seria recebido. O filme ganhou o prêmio de interpretação masculina, e hoje, para ele, era muito importante volver com o filme aureolado como ‘clássico’.

Coleguinhas me haviam desautorizado a visão de ‘The Housemaid’, o filme coreano de IM Sangsoo que partricioa da competição. Perdi-o ontem à tarde e recuperei depois do ‘Beijo’, o que me impediu de falar com  Babenco e Sônia, como gostaria. Muita gente me dizia que o filme coreano era horroroso, uma telenovela. Não sei que canal essas pessoas andam sintonizando, mas pelo que vejo, ao zapear na Globo e nsa Record, não existe nenhuma telenovela como ‘The Housemaid’. O filme é remake de outra produção coreana dos anos 1960. Uma garota vai trabalhar na casa de um bilionário. É seduzida por ele, engravida e a mulher e a sogra criam um inferno para ela, com a ajuda da governanta. Assisti hoje pela manhã ao novo Oliver Stone, ‘Wall Street 2’. ‘The Housemaid’ poderia ter o mesmo subtítulo, ‘Money Never Sleeps’, o dinheiro nunca dorme. A família vive pelo e para o dinheiro (e o poder). A única pessoa que presta na casa é a menininha de quem a ‘housemaid’ começa cuidando. É justamente por meio dela que a empregada vai se vingar,l com seu gosto radical. O filme vira terror puro, mais do que ‘Thirst’, no ano passado. A última imagem, no rosto da garotinha, tem um quê de ‘O Anel’. Assustador, e não é um filme ‘de gênero’.

Por falar em ‘The Ring’ – e ‘Dark Water’ -, o diretor japonês Hideo Nakata mostrou hoje em Un Certain Regard seu novo filme, ‘Chatroom’, sobre um sujeito que cria um chat que agrupa adolescentes. O cara é perturbado, louco de carteirinha, e vai manipular a garotada, forçando-os ao suicídio. Nakata tem noção de ritmo e cria momentos de suspense mjuito fortes, mas cá com meus botões, sem ter conversado com ninguém, achei aquilo tudo muito trash. ‘The Housemaid’ também tem uma cena de suicídio que lembra ‘A Profecia’ e também pode ser chamada de trash, mas pelo menois faz sentido. Me pareceu mais forte do que o Tanaka.

O Dinheiro Nunca Dorme. É a ‘mensagem’ de Oliver Stone. Gordon Gekko estás de volta. Ele deixa a cadeia, na cena inicial, disposto a retomar seu lugar no mundo do grande capital. O filme é sobre o poder corruptor do dinheiro e o crash do sistema financeiro em 2008, mas é principalmednte sobre família. Shia Lebeouf aquer vingar seu mentor, Frank Langella, quie se suicida, no começo, devido às maquinações de Josh Brolin. É o grande ‘tubarão’ dessa história toda e não é mera coincidência que Stone o faça ser interpretado pelo ator que foi o seu George W. Bush. Shia é par de Carey Mulligan, que é filha de Gekko e não perdoa ao pai o suic´pidio do irmão. Numa cena, ela diz ao mado que devem manter o pai longe, porque ele vai lhes fazer mal. Não dá outra. Gordon Gekko não perdoa. Manipula a filha e o genro, mas ele terá sua segunda chance, embora a ‘mensagem’ do filme é que o mal é imbatível e sempre reaparece. Teremos ‘Wall Street 3’. O filho de Shia e Carey, talvez? Não vamos colocar o carro adiante dos bois. ‘Wall Street 2’ é bom e tem uma cena antológica, um baile de caridade que Stone quis transformar no Titanic do sistema financeiro. A câmera faz um complicado movimento que passa por mulheres de todas as idades, focando seus poingentes. Só as orel – diamantes, rubis., pedras variadas e cada briunco maior que o outro. Viva a caridade! Oliver Stone tem feito entrevistas com políticos sul-americanos para seu documentário ‘South of the Border’. Já falou com Raul e Fidel Castro (de novo), com Hugo Chávez e Evo Morales, preciso checar se já falou ou vai falar com Lula. ‘Aquela’ revista vai dizer que a proximidade com todos esses esquerdistas históricos contaminou o diretor de ‘Platoon’ e ‘Nascido em 4 de Julho’. De minha parte, achei ‘Wall Street – Money Never Sleeps’ a versão ficcional do documentário ‘Capitalismo – Uma História de Amor’, de Michael Moore. O filme tem momentos em que parece um documentário. Bem interessante. Pensando bem, Stone,Naskata e Sangsoo topdos propõem diferentes faces do poder e do din heiro como expressões do terror contemporãneo. Agora, me desculpem. Preciso ver Visconti. ‘O Lepardo’ me aguarda.