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‘Trem Noturno’

Luiz Carlos Merten

17 Agosto 2011 | 00h27

Não me lembro mais em que momento dei um pau na Lume. Foi até injusto, porque creditei à empresa do Maranhão a distribuição de ‘Serbian Movie’, o que não é verdade. O interessante é que terminei recompensado. Depois de ‘trocentas’ matérias elogiando a Lume pelo resgate de verdadeiros clássicos em DVD, ela somente agora me colocou no seu mailing e, ao chegar em casa, me aguardava o lançamento de ‘Trem Noturno’, o longa de Jerzy Kawalerowicz, anterior a ‘Madre Joana dos Anjos’ e ‘Faraó’. Kawalerowicz evoca uma fase gloriosa do cinema polonês, por volta de 1960, a geração de Andrzej Wajda, Andrzej Munk e o mais jovem Roman Polanski. Era garoto em Porto Alegre, estava começando a cursar a Faculdade de Arquitetura e, na Reitoria da UFRGS, ocorreram três grandes retrospectivas que fizerasm minha cabeça (e a dos integrantes de minha geração). Cinema soviético, expressionismo alemão e cinema polonês. ‘Cinzas e Diamantes’, a que assisti ali pela primeira vez, foi uma revelação, bem como o inacabado ‘A Passageira’. Mas a sensação daquela mostra, acho que em 1964, após o golpe, quando a repressão ainda não se tornara sanguinária, foi ‘Madre Joana dos Anjos’, que vinha do escândalo que provocara em Cannes. O episódio das freiras possessas de Loudun já havia sido analisado por Aldous Huxley e seria tema de um filme de Ken Russell, interditado pela censura – ‘Os Demônios’. Já falei para vocês que a cena final de ‘A Queda do Império Romano’ se constitui no filme mais glauberiano que Glauber não realizou. Roma em transe – Anthony Mann influenciou Glauber? Imagino que existam glauberianos de carteirinha que tremam só de pensar na hipótese. Da mesma forma, nunca deixei de me perguntar. A estrutura bipolar dos filmes de Glauber – ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’, ‘Terra em Transe’, O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro’ – deve alguma coisa a Kawalerowicz? Pois o mundo de ‘Madre Joana’ se divide entre o convento (Deus) e a taverna (o Diabo), assim como em ‘Faraó’ há uma nítida divisão do espaço, e do poder. O palácio do rei e o local de encontro e consagração dos sacerdotes. Entre ambos, e nos dois casos, o deserto, que Henry Hathaway mostrou como o espaço por excelência do ateísmo em ‘A Lenda dos Desaparecidos’, com John Wayne e Sophia Loren (e ela é a atriz do desfecho do filme de Mann). Foi na citada retrospectiva, em Porto, que assisti a ‘Trem Noturno’. Um homem embarca num trem. Ele parece estar fugindo, Divide o compartimento com uma mulher ansiosa. Ela é Lucyna Winnicka, a Madre Joana. A polícia invade o trem, em busca de um assassino. O cinema de Kawalerowicz, pelo menos na grande fase, era difícil de classificar. Cineasta intelectal, ele conseguia harmonizar estilização e realismo. Sua arte parecia se nutrir de todas as grandes pesquisas da época. Sua marca, presente em ‘Trem Noturno’, ‘Madre Joana’ e ‘Faraó’ – era um filósofo cujos filmes revelavam uma acentuada preocupação moral, e universal.