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Luiz Carlos Merten

23 Novembro 2010 | 10h26

É incrível como um post leva a outro. Falando de ‘Viver a Vida’, citei lá pelas tantas Jim McBride e seu remake de ‘Acossado’. Cada vez gosto mais de ‘Les Plages d’Agnès’, quando me lembro do filme de Agnès Varda no retrospecto. Ela conta como Jacques Demy, cooptado por sei lá que executivo da Columbia, foi fazer um filme na Califórnia. Sempre adorei ‘Model Shop’, com Anouk Aimee e Gary Lockwood, que no Brasil passou como ‘O Segredo Íntimo de Lola’. O filme não fez muito sucesso de público nem de crítica, mas em geral é assim – os melhores Démys costumam ser obras para poucos. Varda conta como se deu bem na Califórnia, como gostou de Los Angeles. Ela revisita amigos, Zalman King e a mulher, Jim McBride e a mulher. Há um pouco de inveja, ela admite, nesse olhar sobre a felicidade de antigos ‘ripongos’ que sempre foram meio alternativos ao cinemão, tiveram as carreiras truncadas, mas sobrevivem, felizes. O que é mais importante, a obra ou a vida? Jim McBride estudou na USP. Fez dois filmes cults para mim – ‘A Força do Amor’, seu ‘Acossado’, e ‘A Fera do Rock’. O primeiro tinha tudo para dar errado. O remake de um filme como ‘A Bout de Souffle’? Quem era esse Jim McBride para se tomar por Jean-Luc Godard? No fim dos anos 1950, Godard e François Truffaut, autor do roteiro (da história?) foram às origens do romance policial e do filme noir, substituindo Los Angeles, habitat de ambas as tendências, por Paris. Vinte e poucos anos depois, McBride deu marcha a ré e bebeu na fonte de Godard para fazer de ‘Breathless’, A Força do Amor, não propriamente um remake, mas um filme gêmeo de ‘Acossado’, como representação da cultura pop. Quem dizia isso era Pepe Escobar, me lembro. Jesse Lujack rouba um carro, um Porsche, na abertura de ‘A Força do Amor’. Ele mata um policial (por acidente) e foge com sua amante, Monica Poiccard (homenagem a Michel Poiccard). McBride disse certa vez que fez seu filme por amor a Godard e a um velho rock que havia sido regravado pelo grupo ‘X’. O rock era ‘Breathless’, martelado ao piano por Jerry Lee Lewis e é ao som da fera do rock que Jesse chama Monicá (como ele diz) para a aventura. Na fuga, eles vão parar num cinema que exibe ‘Gun Crazy’. Embora o filme de Joseph L. Lewis tenha se chamado ‘Mortalmente Perigosa’ no Brasil, ‘Gun Crazy’, Arma Louca, tem um significado especial porque foi o revólver, ao disparar acidentalmente, que iniciou o caminho sem volta de Jesse Lujack. Assim como um post leva a outro, um filme também leva e tenho certeza de que McBride estava tão possuído pela musicalidade de Jerry Lee Lewis que saiu de ‘A Força do Amor’ para fazer ‘Great Balls of Fire’, A Fera do Rock, com aquele Dennis Quaid endiabrado como o próprio. Tenho a maior dificuldade para avaliar, criticamente, esses dois filmes porque tenho imenso prazer em vê-los. McBride, citado/homenageado por Varda, trouxe para o cinema o espírito de sua geração, e ela foi, é, basicamente, uma geração de roqueiros. Libido à solta, liberação do corpo, ataques (provocações?) ao ‘sistema’. Não é por acaso que ele cita ‘Gun Crazy’. Fiz uma pausa e fui consultar Jean Tulard, o ‘Dicionário de Cinema.’ Tulard cita o surrealista Ado Kyrou, para quem ‘Mortalmente Perigosa’ é um filme admirável que demarca o caminho que leva do amor louco à revolta enlouquecida. Essa fascinação europeia pela cultura norte-americana transgressora , de Kyrou a Varda, garante a McBride e seus ‘clássicos’ (cults?) sobrevida permanente.