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Luiz Carlos Merten

29 Julho 2007 | 10h18

Se há uma coisa que eu aprendi no cinema é a não ser precoceituoso. Na vida é sempre mais difícil, mas, no cinema, o que mais adoro é ser surpreendido – pelos grandes artistas e até por esses diretores de blockbusters, tipo Michael Bay. Se a gente vai com parti-pris, achando que vai ser uma m…, que o produto não é cultural, que é pré-crítico, a-crítico e o escumbau, que só o que importa é o dinheiro – o dinheiro é sempre importante; Bernardo Bertolucci diz que filmar é fácil, difícil é levantar a produção –, termina se perdendo um aspecto que é essencial do cinema, desde Meliès, a sua magia. Tudo isso é para dizer que demorei para ver Transformers. Fui ontem à noite, no Arteplex. O filme já está numa das salas pequenas (a 7), sinal de que não foi um estouro. Se fosse, estaria na 1, na 2 ou na 3. Entrei com o pé atrás, com duas ou três pedras na mão e o filme foi me desarmando. É bem legal. Michael Bay adora os efeitos e é maluco. Gosta de efeitos arriscados, porque senão não tem graça. É muito doido ver aquelas engenhocas – carros, furgões, caminhões, aviões – virar robôs e vice-versa. Mas o que o filme tem de bom, e aí é bom mesmo, é a turma de carne-e-osso, o bom e velho elenco. Não sei de que planeta saiu este guri, o Shia LaBoeuf – que nome esquisito –, mas ele é bom. Achei a Megan Fox, comparativamente, muito madura, muito mulherão, mas ela também é boa e é um prazer ver a dupla unida aos transformers do bem para enfrentar a ameaça dos transformers do mal. John Turturro é sensacional e há tempos eu não vai o pai da Jolie Angelina, Jon Voight, exibindo o talento que parecia perdido. O filme tem ação, humor, diz coisas divertidas sobre a paranóia americana e o perigo do mundo virtual – nisso, tem alguma coisa a ver com Duro de Matar 4.0, que estréia na sexta, dia 3. Não estou entusiasmado com Transformers, não é isso. Mas achei que ia ser perda de tempo, estava indo porque vocês aqui no blog já me pediram uma opinião sobre o filme. Pois é! Não foi perda de tempo. Houve ganho. E se há uma coisa de que eu gosto muito é essa coisa de tentar humanizar máquinas. Elas são desumanas, claro, e desde Kubrick, com Hal-9000, em 2001, são também ameaçadoras. O olho de Hal tudo controlava. O olho, espelho da alma. Michael Bay cria a oposição dos seus transformers pelo olho. Como se faz um olho malvado e outro permeado de compaixão? E em máquinas! O mais legal é que cheguei no Arteplex, 9 da noite, e encontrei a Anahy, do Festival do Cinema Latino-Americano, que estava assessorando o Paul Leduc, no dia em que o entrevistei. Brinquei com ela – não diz para ninguém que me viu entrando no Transformers. Eu conto! Fui, vi e gostei. Gostei mais de Juan Moreira, de Leonardo Favio, que havia revisto à tarde, no Festival Latino-Americano. Juan Moreira é outra coisa. Os dois filmes me exigem de forma diferente. Um mais reflexivo, outro mais cheio de adrenalina. Se há uma coisa de que eu preciso, e vocês já sabem, é de aventura no cinema. Não só, mas também.