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Luiz Carlos Merten

28 Junho 2009 | 14h01

Finalmente, consegui assistir ontem a ‘Transformers 2’. Não vou recomendar a ninguém, porque pelo visto estarei passando atestado de incompetência ou loucura, mas quero dizer que me diverti bastante e até me emocionei. Na sexta, ao chegar na cabine de ‘A Era do Gelo 3’, tive de ouvir os coleguinhas zoando sobre a coletiva de Michael Bay e Shia Laboeuf, via satélite, no sábado anterior. Perdi porque estava no Rio, por conta do Cine-Sul (e da homenagem a Carlos Hugo Christensen), mas confesso sinceramente que lamentei. Não tinha visto o filme, de qualquer maneira, mas conhecendo a idiossincrasia de Michael Bay, voltei a ficar perplexo, como no primeiro filme. Michael Bay gosta de filmar em cenários naturais – perseguições de carros, colisões, tiroteios. Como ele consegue conciliar isso com o fato óbvio de que as transformações – de carro e caminhões em autobots e decepticons – só podem ser produzidas em computador, ou com a tal tecnologia de ponta? Eu confesso que, de toda essa parafernália de Hollywood, a única coisa que realmente me impressiona é essa ‘passagem’ de um estado a outro na série ‘Transformers’. Tudo o mais é bobagem. Mas, enfim, sou eu, com meu parafuso a menos, ou a mais, não sei. Estranho que as pessoas não consigam se divertir. Acho até que as coisas fazem sentido no filme. No começo, Shia está indo para a faculdade. É o primeiro da família a conseguir isso e ele está empenhado em ser um adolescente ‘normal’. Tirando o prólogo – a apresentação do elo entre humanos e transformers, há 17 mil anos –, as primeiras cenas do herói são em ‘família’. A mãe encontrou seu sapatinho e chora porque ele está indo embora. O pai dá conselhos – na faculdade, ele vai encontrar uma mulherada ávida por experiências. Não adianta Shia dizer que é homem de uma só mulher – quer dizer, Megan Foxx é o que Stanislaw Ponte Preta chamaria de mulher para 400 talheres, ou para concentrar em uma todas as mulheres do mundo. (E os dois têm uma ótima química. Eu confesso que relaxo e gozo como voyeur vendo Megan e Shia em cena. Aquela mulher é a uma cavala, no bom sentido, sem ofensa, e ele segura o tranco. E depois tudo o que ocorre é para que ele diga que a ama, não é?) O curioso é que, no final, vamos ter uma inversão. Quando o herói, no fim, precisa se arriscar, é a mãe que o empurra para a ação, enquanto o pai tenta tratá-lo como a uma criança. Essa relação ‘familiar’, a construção da identidade de Shia pela ruptura consentida pela mãe – a sociedade norte-americana é matriarcal, ou não? –, me parece bem interessante, mas o que me encanta nos ‘Transformers’ é a mitologia criada em torno das máquinas. Kubrick sacramentou a máquina como inimiga do humano em ‘2001’, com aquele computador que enlouquecia, Hal-9000. O carro/robô de Shia é de uma devoção canina ao herói. Aliás, é uma das piadas mais bem construídas do filme. O carro/robô ocupa esse lugar – reassumindo a condição de bicho doméstico nas primitivas comédias da era muda – porque os cães de verdade estão muito ocupados ‘fornicando’. Bumblebee chega a chorar quando Shia diz que, como calouro, não tem direito de levá-lo para a escola. A máquina humanizada, a máquina que chora é uma grande piada (ou será que só eu sinto assim)?). Na verdade, Michael Bay é over do over, mas li em algum lugar que Spielberg havia elogiado ‘Transformers 2’. Claro que sempre tem alguém para dizer que ele fez isso porque é produtor, para ganhar dinheiro, mas Lucas, Spielberg, Scorsese e Coppola formam um grupo que respeito muito. Posso nem gostar dos filmes, mas acho que não são meros comerciantes. São visionários, construtores de sonhos, e acreditam no que dizem e fazem. Quando não gosta, eles se calam e existem filmes que produziram sobre os quais não falam. Havia gostado de ‘Star Trek’, mas saí do cinema com a cabeça formigando depois de ver ‘Transformers 2’. Aquela união da máquina com o homem, criando uma nova mitologia para desautorizar os militares, que estão querendo cercar o presidente, me parece a pá de cal na era Bush. E essa mitologia, fantasiosa como é, me parece bacana. Os autobots se identificaram com o o homem porque, de todos os planetas do universo, foi aqui que eles descobriram uma raça capaz de compaixão. Um credo humanista? Ora, pois… O filme é barulhento? É. É Longo? É – mas as duas horas e meia passaram voando para mim. Michael Bay veio da publicidade e filma Megan Foxx como se ela pertencesse ao universo da propaganda. E não pertence? Aquela mulher é perfeita demais, com seu sorriso Colgate e os olhos que brilham mais do que diamante em propaganda de cartão de crédito. E o primeiro ângulo dela, trepada na moto – se fosse 3-D a bunda estaria jogada na cara da gente –, sacramenta essa elefantíase do sexo que percorre a narrativa. Michael Bay celebra a estética publicitária ou ela faz parte do mesmo movimento quando Shia grafita em cima do pôster de… ‘Bad Boys II’? O filme é patriótico? Tem excesso de bandeiras dos EUA? Tem, mas John Turturro, que é o mais – ou único – patriota da trama liga-se àquele espanhol como se fossem unha e carne e a relação de superioridade vira de igualdade. Chega – desse jeirto vou virar fã de Michael Bay, o que, evidentemente, não é o caso. ‘Transformers 2’ não é uma obra de arte. O filme é um objeto de consumo, e como tal compõe um fenômeno. Me divertiu bastante, e com mais inteligência do que duas ou três críticas que tentei ler na internet. Entrei no Google, digitei ‘Transformers 2’ críticas, e tentei ler algumas. Desisti, porque a segunda e a terceira repetiam a primeira e cada uma era mais preconceituosa do que a outra, batendo todas na mesma tecla e a tecla em questão é que todo mundo sabe como é Michael Bay. Pois bem – quero dizer que me diverti (e bastante). Quase chorei numa cena – como se humaniza o olhar de um robô? Michael Bay conseguiu. Bumblebee e Optimus Prime têm aquele olhar angustiado que Nicholas Ray perseguia para expressar seus personagens atormentados (e para justificar a máxima de que o cinema é a melodia do olhar). Agora, podem jogar suas pedras.