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Luiz Carlos Merten

31 Março 2010 | 14h43

Desde que vi o anúncio da peça ‘August’, de Tracy Letts, com Norma Aleandro, em cartaz em Buenos Aires, fiquei com a pergunta martelando na minha cabeça. Quem é Tracy Letts? O nome não me era estranho, mas não vinha quem era. Poderia ter eliminado o problema pesquisando na internet, mas terminei resolvendo a parada da forma mais indireta. Já contei que fui ‘zapear’ os lançamentos em DVD no site da 2001 (www.2001video.com.br). Entre as novidades, está o ‘Bug’, Possuídos, de William Friedkin, com Ashley Judd. O filme baseia-se numa peça de Tracy. Ashley faz garçonete acossada pelo ex-marido presidiário. Ela vive meio desregrada, numa crise pessoal. Cata esse homem no fim de noite e o leva para casa. Michael Shannon repete seu personagem do palco. É um veterano que pensa que foi cobaia numa experiência do Exército. Seu corpo, ele acredita, virou uma colônia de insetos que o estão devorando. Não sei se ‘Agosto’ terá algo dessa selvageria, mas ‘Possuídos’ é punk. Friedkin foi comparado a David Cronenberg, que também curte os temas da paranoia e da (auto)destruição. O homem, nos filmes de Cronenberg, provoca mutações no próprio corpo – ou mente – e elas o transformam em aberração aos olhos de seus semelhantes. “Possuídos’ é um pouco sobre isso, mas tenho cá comigo que Friedkin talvez seja mais David Lynch. Friedkin filma a cena de sexo entre Shannon e Ashley como se os insetos que o consomem estivessem sendo transferidos para ela.  Os insetos existem ou são alucinações mentais? Há uma cena que exige estômago particularmente forte. Shannon acha que o buraco do seu dente virou ninho de insetos. O que ele faz? Arranca o dente e fica sofrendo de espasmos nervosos, o corpo fora de controle, como a Regan de ‘O Exorcista’, que Friedkin fez em 1973. Encontrei-me com ele em Los Angeles. Estava na cidade participando sei lá de que junkett e surgiu a oportunidade de entrevistar Friedkin acho que pela edição comemorativa, 30 ou 35 anos, de ‘Operação França’. Friedkin lembrou seus verdes anos. A cena da perseguição de carros foi, segundo a perspectiva de hoje, filmada de forma totalmente irresponsável. Tudo aquilo era real, aquela correria louca nas ruas. Hoje, Friedkin acha que não teria coragem de arriscar as vidas dos outros. Quando se é jovem, a gente não tem  noção de perigo, ele avaliou. Nos últimos anos, o cinema virou atividade secundária para Friedkin, que prefere ser metteur en scène de ópera. Isso se reflete no seu cinema, em ‘Possuídos’. Corte e montagem são brutais, mas também existem cenas que já nascem audiovisuais e em que imagem, e música formam uma coisa só. Será que ‘Agosto’ tem algo da obsessão e da claustrofobia que William Friedkin encontrou na outra peça de Tracy Letts? Lamento mais ainda não ter visto Norma Aleandro no palco, em Buenos Aires. O DVD de ‘Bug’ está nas locadoras, na 2001. A propósito, o filme é de 2006. Passou senão me engano na Quinzena dos Realizadores (ou terá sido Un Certain Regard?), em Cannes.  Seja como for, virou cult e muita gente saiu do festival naquele ano convencida de que ‘Possuídos’ era ‘o’ filme.

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