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Luiz Carlos Merten

07 Março 2008 | 09h53

Minha filha me disse – saiu um DVD comemorativo dos 25 anos de ‘Tootsie’. Ontem, cheguei em casa e me aguardava um pacote da Sony, com a comédia do Sydney Pollack e também com ‘Feitiço do Tempo’, do Harold Ramis, que adoro. Na capa do DVD, Dustin Hoffman, com aquele vestido brilhante da Tootsie, exibe uma faixa, tipo de miss, onde está escrito ’25º aniversário’. ‘Tootsie’ é do começo dos anos 80 – 81 ou 82 – e eu me lembro que ganhou o Oscar de atriz coadjuvante, naquele ano em que Jessica Lange também concorria na categoria principal, de melhor atriz, por ‘Frances’, de Clifford Graeme. ‘Tootsie’ surgiu na seqüência de ‘Kramer Vs. Kramer’, de Robert Benton, também com Dustin Hoffman – e eu tenho a impressão de que, se o Oscar fosse sério (….), ele teria sido premiado pelo seu travesti, que é maravilhoso. Mas o que quero falar desses filmes, de ‘Kramer Vs. Kramer’ e ‘Tootsie’, é o seguinte. Por volta de 1980, eu produzia um programa de rádio em Porto Alegre – com uma mulher incrível, a apresentadora Tânia Carvalho. O programa era feminista e, antes da Marta Suplicy, a sexóloga Maria Aparecida Vieira Souto, já discutia a sexualidade feminina no ar, falando de penetração, ejaculação, orgasmo e sexo vaginal e anal da forma mais inocente do mundo. Era na Rádio Gaúcha e a direção vivia no maior sobressalto. Ainda havia ditadura, censura, e a todo momento eles tinham medo de que a rádio saísse do ar, por causa daqueles ‘excessos’. Mas o programa fazia o maior sucesso. Fim do parêntese. ‘Kramer’, que ganhou um,a chuva de Oscars, incluindo melhor filme, diretor e ator (Dustin Hoffman), foi vendido como um filme feminista. O marido assume o filho quando a mulher vai embora, ele dá conta do recado e, quando a mulher volta, reivindicando a guarda do menino, o caso vai parar no tribunal. Tenho para mim que ‘Kramer’ e ‘Tootsie’ não só não são feministas, como são filmes que representam um novo tipo de machismo que se manifesta pela superioridade indiscutível dos homens – em ambos, Dustin Hoofman é melhor do que qualquer mulher. Melhor mãe, melhor mulher mesmo (Tootsie vira a queridinha da América). Também não acredito muito no feminismo de ‘Thelma e Louise’, de Ridley Scott, embora adore o filme. O que Susan Sarandon e Geena Davis fazem é reproduzir a trajetória violenta dos homens e eu não creio que o tal feminismo seja isso. De volta a ‘Tootsie’, o filme do Pollack é divertido, inteligente, muito bem interpretado. O próprio Pollack faz o agente do Dustin Hoffman, que acha loucura quando ele, um ator desempregado, se disfarça como mulher e ganha o papel principal de um novo seriado de TV. Gostava mais do Pollack do que hoje – ‘A Noite dos Desesperados’ e ‘Mais Forte Que a Vingança’ (Jeremiah Johnson) são grandes filmes –, mas há, no cinema dele, uma coisa que me encanta. Em ‘Nosso Amor de Ontem’, Barbra Streisand e Robert Redford saem naquele passeio de barco, como existe a cena dos balões com Al Pacino e Marthe Keller em ‘Bobby Deerfield’ e Meryl Streep e de novo Redford saem naquele passeio de avião em ‘Entre Dois Amores’ (Out of Africa). São cenas deslumbrantes. Expressam a precariedade da existência humana, a fragilidade dos sentimentos. Em ‘Tootsie’, tem a cena do balanço, quando o viúvo Charles Durning se declara para Tootsie. Ele fala dos seus sentimentos, do seu vazio que Tootsie poderá preencher. Parece coisa de Dino Risi. E, ao mesmo tempo que é delicada, a cena é cruel, gera o mal-estar, pois o espectador sabe que Durning está comprando gato por lebre e Hoffman, mesmo vestido de mulher, não é gay. De posse do DVD, fiquei morrendo de vontade de revê-lo, mas vocês já viram, né – se eu for encarar todos estes filmes que estou ‘me’ devendo (ainda não consegui assistir a ‘Partner’, do Bertolucci, o que espero fazer no fim de semana), acho que vou ter de tirar uma semana de licença no jornal só para isso!

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