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Luiz Carlos Merten

01 Outubro 2010 | 09h47

RIO – Tive ontem um dia de cão. Pela manhã, mal consegui acrescentar o post sobre a morte de Arthur Penn –  o grande Arthur Penn – e já mergulhei no corre-corre do dia. Tinha ‘trocentas’ matérias – leiam no ‘Caderno 2’ de hoje – e outras tantas entrevistas para concluir. Tentei, mas não consegui acrescentar nenhum post sobre a morte de Tony Curtis. Depois, emendei um filme atrás do outro, até meia-noite. Ao saber da morte de Tony Curtis, curioso, quem me veio à mente foi Jamie Lee Curtis. Nem me lembro mais por qual filme a entrevistei em Los Angeles, logo após a morte de sua mãe, Janet Leigh. Ela falou com muito carinho da mãe, chorou e dava para ver que não representava. Até por ser pai, fiquei pensando qual terá sido a reação de Jamie Lee. Não cheguei a comentar com ela sobre sua relação com o pai. Afinal, nos anos 1960, Tony e Janet formavam um dos casais perfeitos de Hollywood, como Debbie Reynolds e Eddie Fisher. Assim como Eddie abandonou Debbie para ficar com Elizabeth Taylor – e Carrie Fisher faz, em sua autobiografia, um relato divertido do que, na época, foi uma tragédia familiar -, Tony Curtis também se divorciou de Janet Leigh para se casar com Christine Kaufman, que parecia uma garotinha. Jamie ficou com a mãe, o que deve ter estreitado os laços entre ambas. Eu gostava de Tony Curtis, o comediante de ‘Quanto Mais Quente Melhor’, de Billy Wilder; ‘Anáguas a Bordo’, de Blake Edwards; e ‘Médica, Bonita e Solteira’, de Richard Quine. Mas eu gostava mais ainda do ator dramático – ‘A Embriaguez don Sucesso’, de Alexander Mackendrick; ‘Vikings, os Conquistadores’, de Richard Fleischer (que não é só um filme aventuras); ‘Spartacus’, de Stanley Kubrick (o escravo poeta); e ‘O Homem Que Odiava as Mulheres’, de novo de Fleischer, em que se transformou, fisicamente, para encarnar o estrangulador de Boston, Albert De Salvo. O problema de Tony Curtis talvez tenha sido ser um homem bonito demais, que ele era, tenhamos a coragem de confessar. Tenho um cunhado, Mário Pacheco, marido de minha irmã Marlene, que sempree foi fã de Tony Curtis. Imagino que o Mário, que está nos seus 70 me poucos, tenha sido abalado pela morte do astro. Eles estão se indo, os últimos remanescentes de uma Hollywood que também não existe mais. Para a crítica, Tony Curtis era só aquela carinha, um galãzinho. Era mais do que isso. Li sua autobiografia e ele, nascido Bernard Schwartz, filho de um modesto alfaiate húngaro (e judeu), conta como foi difícil a infância no Bronx. A mãe e dois ou três irmãos eram esquizofrênicos e tiveram de ser internados. ‘Bernard’ pagou o preço de sua ‘normalidade’, seja lá o que isso signifique. O pai, que carregava a cruz da família, deve ter achado que ele poderia se virar sozinho e o colocou num orfanato. Ele foi marinheiro durante a guerra, no front do Pacífico. Ao chegar a Hollywood, conta, também em sua autobiografia, como era assediado – por produtores e agentes gays e por mulheres carentes. Poderia ter se destruído como michê, como garoto de programas. Os dramas que interpretou, Tony Curtis tinha vivência para entender todas aquelas figuras. Bastava buscá-las dentro de si mesmo. Não me lembro mais em que ano, mas num Festival de Cannes ele foi prestigiar a abertura da exposição de seus quadros numa galeria na Croisette (virou artista visual, como Anthony Quinn, que pintava e esculpia). Tomei um choque. Sei lá em que momento Tony Curtis resolveu que ia mandar às favas sua reputação de homem bonito. Estava um velho caído, largado, mas parecia bem consigo mesmo. O que me causou estranhamento foi o figurino. Paletó social, uma bermuda de linho ou sarja, clara, sapatos sociais, de bico fino, e meias coloridas. Excêntrico, no mínimo. Sua morte, um dia depois de Arthur Penn, vem se somar às perdas do ano.