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Luiz Carlos Merten

24 Março 2012 | 12h16

Pode ser que me engane, mas tenho a impressão de que a morte de Tonino Guerra, nesta semana, encerra a grande fase dos roteiristas do cinema italiano. Antes dele foram-se Suso Cecchi D’Amico, Ennio Flaiano, Tullio Pinelli, Massimo Franciosa, Pasquale Festa Campanile. Creio que ainda estão sobrando Enrico Medioli e Franco Solinas, mas não sei, teria de checar. (Agora me bateu que Solinas também morreu, e faz tempo.)  Tonino começou à sombra de Cesare Zavattini, o lendário roteirista que, associado principalmente a Vittorio De Sica, definiu o tipo de investigação social e política que deu o tom do neo-realismo. Tonino divergiu de seu mestre/mentor e se uniu aos autores que, a partir dos anos 1960, revolucionaram as estruturas narrativas – e éticas – do cinema italiano e mundial para investigar o intertior, mais que o exterior (dos persoinagens e do mundo). Ele morreu nonagenário (de velho?), depois de colaborar com Michelangelo Antonioni, Federico Fellini, Andrei Tarkovski, Theo Angelopoulos e tantos outros luminares do cinema autoral, exigente, seletivo. Nenhum desses autores é, pelo menos no sentido hollywoodiano, um contador de histórias. O próprio Fellini, depois de ‘A Doce Vida’, subverteu cada vez mais suas narrativas romanescas dos anos 1950, da época de ‘O Abismo de Um Sonho’ e ‘La Strada’. E todos esculpiam o tempo, cada um à sua maneira. Creio, mas essa é a afirmação de um observador de fora, que o próprio método de Tonino Guerra, só foi colocado à prova pelo cinema investigativo de Francesco Rosi, com quem ele fez ‘O Caso Mattei’ e ‘Lucky Luciano’. Os dois filmes não deixam de investigar o tempo – por meio de flash-backs -, mas o tom agora é documentário (documentado?), diferentemente das deambulações existenciais dos burgueses de Antonioni, por exemplo. Qual terá sido a contribuição de Tonino Guerra a uma cena que sempre me impressiona no cinema de Antonioni? Em ‘A Aventura’, Monica VItti e Gabriele Ferzetti procuram Lea Massari, que sumiu durante um cruzeiro. As razões desse desaparecimento só serão explicadas, e mesmo assim, tenuemente, no final de ‘O Eclipse’, quando a humanidade desaparece (o eclipse do gênero humano). Monica e Ferzetti chegam a essa aldeia, ou pequena cidade, onde só arecem homens. Ela veste um tailleur escuro, de bolinhas. Velhos, moços, os homens a cercam e seguem, como lobos famélicos. A cena é longa, não faz, por assim dizer, avançar a história – a busca -, mas o desenlace revela muito sobre Monica e o personagem de Ferzetti. Tenho sempre a impressão de que o que Tonino fez foi desconstruir o roteiro tradicional. E, nisto, ele foi grande.