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Tomu Uchida e sua lança ensanguentada

Luiz Carlos Merten

25 Novembro 2011 | 00h39

Viajo pela manhã para o Uruguai. Passo o fim de semana em Montevidéu, onde hoje à noite (sexta) haverá a última representação da peça de meu amigo Dib Carneiro, ‘Salmo 91’. Vamos ver como ela ficou em espanhol. Já é passado da meia-noite, estou cansado, mas não resisto a acrescentar um post, mesmo breve, sobre Tomu Uchida, que ganha um ciclo, acho que na Sala Cinemateca. Teria de pesquisar para ver quais os filmes que serão exibidos, mas isso me tomaria tempo. Conheço mais Uchida por sua reputação do que pela obra, propriamente dita, mas não posso deixar de recomendar os três filmes dele que conheço. Espero que estejam na programação. Uchida nasceu no finalzinho do século 19 e morreu em 1970, por aí. Foi contemporâneo de Yasujiro Ozu e Kenji Mizoguchi, de Teinosuke Kinugasa também. Os filmes são ‘Terra’, de 1929, mesmo título da obra-prima de Dovjenko, e ‘A Lança Ensanguentada’, de 1955. Não poderiam ser mais diferentes entre si. O primeiro propõe uma abordagem minuciosa e realista da vida dos camponeses do Japão. O Uchida deste filme costuma ser comparado a Mizoguchi, por seu desejo de retratar a sociedade e a vida dos pobres. Poderia ser a obra de um precursor do neo-realismo e a vida do próprio Uchida deu uma guinada nos anos 1930. Ele se desligou do Exército imperial que ocupava a Manchúria e, além de desertar, se inscreveu no Partido Comunista, fundando uma escola de cinema para fazer avançar a revolução… chinesa. Não conheço os detalhes, mas imagino que ele tenha se desencantado com Mao, porque voltou ao Japão e se inscreveu na vertente histórica – e espetacular – que estava em voga (e com a qual o até então isolado cinema japonês se impõs ao Ocidente). ‘A Lança’ baseia-se num conto medieval e possui um clima fantástico que se manifesta por meio de belíssimas imagens. E Uchida é violento, bebendo na fonte do teatro kabuki tanto quanto se deixa contaminar pelo melodrama, no que pode ser considerado um espasmo tardio da sua opção pela cultura popular três, décadas antes. Assinalei que conhecia três filmes do autor e o , terceiro deles chama-se ‘Jan Barujan’. Filmado em duas partes, conheço só a segunda, que conta em versão japonesa a história de Jean Valjean, o herói de ‘Os Miseráveis’, de Victor Hugo. Na volta de Montevidéu, espero que o ciclo ainda esteja rolando. Uchioda é daqueles autores que pedem revisão.