Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Tomu quem?

Cultura

Luiz Carlos Merten

11 Outubro 2010 | 10h43

Faz 40 anos que morreu Tomu Uchida (em agosto de 1970). Tomu quem? A maioria de vocês nem deve saber de quem se trata. Carlos Reichenbach sabe. Nascido no finalzinho do século 19 – em 1898, acho –, Uchida foi contemporâneo de Kenzo Mizoguchi e Yasujiro Ozu. Começou como ator, mas como não lhe agradava ser marionete dos diretores, resolveu, ele próprio, se tornar diretor. Como pioneiro do cinema japonês, ajudou a definir uma identidade para aquela cinematografia. Sua primeira fase foi marcadamente realista e, por ‘A Terra’, nos anos 1930, foi chamado de Zola japonês. Nunca vi o filme, mas conheço sua reputação. Insatisfeito com os rumos que a militarização traçava para o Japão – e que levaram ao ataque a Pearl Harbor e, consequentemente, à escalada do país na 2ª Guerra –, Uchida, que se havia tornado comunista, desertou do Exército e foi para a Manchúria, onde se integrou ao processo revolucionário. Sabe-se pouco dessa fase, exceto que fez a revolução chinesa como cineasta, provavelmente documentando o que se passava na China. Gosto de imaginar, aí já estou fantasiando, que Uchida viveu, na vida real, um pouco da experiência de Kagi, interpretado por Taytsuya Nakadai, no monumento de Masaki Kobayashi, ‘Guerra e Humanidade’ (ou ‘A Condição Humana’). De volta ao Japão, em 1953 ou 54, Uchida reintegrou-se à Nikkatsu, onde iniciara sua carreira como diretor, e fez os épicos de sabre que marcaram sua etapa final. Eram os anos de Teinosuke Kinugasa (‘O Portal do Inferno’) e Akira Kurosawa (‘Rashomon’ e ‘Os Sete Samurais’), o Ocidente esperava um certo tipo de filme (exótico?) do Japão e Uchida deu sua contribuição. Por que estou falando tudo isso? Porque somente agora, ao consultar no Guia do ‘Estado’ o horário de um filme que pretendo ver, descobri que o Centro Cultural São Paulo e a Cinemateca Brasileira, em parceria com a Fundação Japão estão promovendo, o ciclo ‘O Sangue Quente do Japão – Cinema Japonês Fora da Lei’. No sábado, teria valido a pena lançar âncora na Cinemateca para assistir a ‘Lança Sangrenta’, também conhecido como ‘O Monte Fuji e a Lança Ensanguentada’, de Uchida, e ‘O Homem do Riquixá’, de Hiroshi Inagaki. Lembro-me que quando o segundo estreou em Porto Alegre, há mais ou menos 50 anos, P.F. Gastal foi crítico em relação ao formalismo de Inagaki, reclamando de seus efeitos visuais. Mesmo assim, acho que valeria (re)ver o filme interpretado pelo ‘kurosawiano’ Toshiro Mifune – ‘O Homem do Riquixá’ recebeu o Leão de Ouro de 1958 –, como também valeria, mais ainda, ver o de Uchida. Boa notícia. Na quinta, ‘A Lança Sangrenta’ terá outra sessão, às 16 horas, no Centro Cultural São Paulo e, às 20 horas, a Cinemateca vai exibir um dos últimos (o último?) Uchida, ‘O Grande Duelo’. Prometo voltar ao assunto. Por ora, só quero acrescentar que o ciclo também contempla filmes de Kinji Fukasaku, queridinho de Quentin Tarantino e que foi referência quando ele fez ‘Kill Bill’ (da mesma forma que Enzo G. Castellari está na origem de ‘Bastardos Inglórios’).