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Luiz Carlos Merten

12 Agosto 2007 | 18h29

Sérgio L. Andrade tem razão. Embora não lesse Cahiers du Cinéma na época, pertenço a uma geração da crítica gasúcha (Jefferson Barros, Enéas de Souza) que rezava pela cartilha da política de autores de Cahiers du Cinéma, nos anos 60. Espero que tenha ficado claro que não achava o Huston genial, mas não é que ele não fosse. Eu é que não enxergava seu gênio direito. De qualquer maneira, mesmo gostando (também) de Os Desajustados – mas eu sempre me lembro mais da Thelma Ritter que do trio de protagonistas -, repito que gosto do Huston psicanalisado por Freud, o filme. Acho Os Pecados de Todos Nós o máximo. O solilóquio do Marlon Brando na sala de aula, na Academia Militar, me parece o ponto alto da carreira dele. E Huston contrapõe ao gay reprimido que Brando representa o gay escrachado (Zorro David), como contrapõe à rigidez de Julie Harris a sensualidade agressiva e vulgar de Elizabeth Taylor. Que filme! Feito o comentário do comentário, gente, que emoção. Só agora vi que o próprio Luiz Fernando Goulart deu resposta ao meu post sobre ele. Grande Luiz Fernando, por favor, vamos dar um jeito de colocar Marília e Marina no acervo do Canal Brasil… Estou indo para o Cine Embaixador, o Palácio dos Festivais de Gramado. Vou ver dois longas – Castelar de Nelson Dantas no País dos Generais, de Carlos Alberto Prates Correia, que agora se assina só Carlos Prates, e Valsa para Bruno Stein, de Paulo Nascimento. Tenho o maior respeito pelo Prates, mas meu filme preferido dele continua sendo Perdida, que vi nos anos 70, quando o filme foi submetido à comissão de seleção de Gramado. Eu não era da comissão, estava desvinculado de jornais. Fui de penetra. Não me lembro se Perdida foi selecionado. Acho que não, porque na época eu vivia em Porto e criticava, nos pequenos espaços que tinha, o festival, dizendo que Gramado se preocupava mais com o turismo do que com os filmes, não afrontando – como eu achava que devia afrontar – o regime militar. Perdida teve problemas com a censura e estreou nos cinemas numa versão adulterada, com cortes que desfiguravam o filme que havia visto (e me havia encantado pela ousadia, vitalidade e transgressão. Até hoje me lembro da Maria Sílvia em Perdida e acho que ela era maravilhosa.) Carlos Alberto Prates Correia, ou Carlos Prates, lá vou eu, cheio de expectativa. Quero dizer que vou continuar dando espaço ao cinema brasileiro – um espaço desproporcional à sua força, como diz o Nino (foi ele, não?). Quem sabe a gente não aumenta? Digo – o espaço e a força. Só para finalizar. Esta coisa de viajar é legal, mas às vezes fico meio perdido no tempo e no espaço. Só hoje, a caminho de Gramado, vio que há uma mostra de Jorge Sanjinés (na Galeria Olido ou no Centro Cultural São Paulo?) Termina hoje e acho que não dá mais para ver A Coragem do Povo, mas com certeza dá tempo de assistir a Sangue de Condor. Se o cinema brasileiro é miúra (face aos blockbusters de Hollywood), imagine o boliviano. Sempre gostei do Sanjinés, do seu rigor, do seu minimalismo, do seu cinema de raízes índias. Vejam, e depois me digam se estou errado.

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