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Todo o sentimento

Luiz Carlos Merten

02 Março 2018 | 10h25

Fui ver ontem Caravanas, o novo show de Chico Buarque. Chico sempre foi um grande artista e referência para a minha geração. Roberto Carlos cantou a vida e os amores de gerações de brasileiros. Só gosto pontualmente dele. Roberto reinventado por Nara Leão, E Que Tudo o Mais Vá para o Inferno, um dos discos fundamentais da MPB, coisa de Tom & Elis, por aí. Sou mais o Chico me cantando – nos cantando -, mesmo que O Divã (Relembro a casa com varanda…) seja uma obra-prima, e um roteiro pronto. Mas, nos últimos anos, nessa polarização do Brasil pró e anti-PT, Chico virou a Geni da própria composição. Virou moda jogar m… no Chico. Os cães ladram, a caravana passa. Será que as pessoas não pensam,? É tão fácil manipulá-las… Todo aquele povo que vestiu camiseta amarela da seleção nos protestos de três anos atrás. A CBF atolada em denúncias de corrupção, a seleção aviltada, tendo tomado 7 a 1. Não podia dar certo. Semiologia, o estudo dos signos. Estava na cara. Passou o tempo, a esquerda, ou o que sobrou dela, continua usando os shows de Chico para gritar ‘Fora, Temer’. Ele segue, o nosso Drácula, vampiro do neoliberalismo. Foi assim que a escola ganhou na Sapucaí. O clamor ultrapassa, extravasa os shows de Chico. Talvez – sim – o roteiro das músicas de Caravanas alinhe uma tomada de posição por um outro Brasil, mas os gritos de ‘Fora!’ não vêm do palco, mas da plateia. E, na plateia, havia gente que reconhecidamente apoiou o impeachment – o golpe, segundo o filósofo da direita, Olavo de Carvalho, no documentário Jardim das Aflições. Gente que fazia o gesto de mandar Dilma tomar… Lá! Agora aplaude Chico enquanto outros gritam palavras de ordem contra Temer. O que me leva a Luchino Visconti e sua grande retrospectiva. Tancredi, as coisas precisam mudar para que tudo fique no mesmo. O Leopardo. Temer já teve sua utilidade, não? Jardim das Aflições, o filme, é nada, mas é interessante ver Olavo de Carvalho explicar o pacto da direita para expelir Dilma. Não estou tomando posição nenhuma. Sou um jornalista de cinema. Um crítico. Só olho, e analiso. Olavo, lá, é didático como o show de Chico é maravilhoso, mas o elogio do artista à delicadeza, no Brasil – no mundo – de hoje parece coisa de outra era. Ver Chico cantar Minha embaixada chegou, Retrato em Branco e Preto, Sabiá, Gota d’Água, Geni e o Zepelin me deu uma sensação de tristeza. Todo o Sentimento – Depois de te perder
Te encontro, com certeza
Talvez num tempo da delicadeza
Onde não diremos nada
Nada aconteceu
Apenas seguirei
Como encantado ao lado teu.
Já fomos melhores, creio. Ingênuos, talvez, idealistas. Tínhamos esperança num projeto coletivo, não no salve-se quem puder da meritocracia, que exclui muito mais do que integra. Na vida, na música, no cinema, havia esperança. Sem nostalgia tola – ‘Não sou um reacionário’, grito como meu mestre (Visconti) em Violência e Paixão. Creio ter um olhar para o novo. Para a vida. Depois de Visconti haverá, no CineSesc, uma seleção da Mostra de Tiradentes. E, depois do depois, o Festival Melhores Filmes. E depois, do depois do depois, o É Tudo Verdade, com aqueles documentários todos de Berlim – espero! A vida segue, um dia riremos de tudo isso, e se não for eu será minha filha, os filhos dos meus amigos. Só quero dizer que me emocionei muito no show de Chico.