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Luiz Carlos Merten

09 Outubro 2008 | 10h13

RIO – Todo mundo tem problemas sexuais e todo filme de Domingos Oliveira tem de ter um manifesto por trás. Primeiro, era o BOAA, o filme de baixo orçamento e alto astral, que ele defendia como solução para o cinema brasileiro. Depois, Domingos fez um filme um pouquinho mais caro – ‘Juventude’ – e em Gramado, em agosto, se esqueceu da questão do orçamento para se concentrar na defesa do cinema autoral. Eu também defendo o cinema de autor, até porque acho que ele faz parte do mercado – num nicho, que seja –, mas não tenho muita paciência com este lado ‘Eu sou a salvação’, que o Domingos terminou encarnando, no ncinema brasileiro. E olhem que gosto muito dos primeiros filmes dele (um pouco menos dos atuais, é verdade). Ontem à noite, ‘Todo Mundo Tem Problemas Sexuais’, o novo Domingos Oliveira, encerrou, fora de concurso, a Première Brasil de 2008. Quis ver a apresentação, mas deixei para assistir ao filme hoje. No horário, seria minha última chance para ver ‘A Canção de Baal’, de Helena Ignez. Achei o filme da Helena radicalmente autoral e, aquele sim, não se preocupa em ser palatável para o mercado, como as comédias doce-amargas de Domingos. ‘A Canção de Baal’ é uma livre adaptação de Brecht. Começa e termina com trechos do depoimento do dramaturgo e poeta perante o Comiê de Atividades Anti-Americanas do Senado dos EUA, durante o macarthismo. Mais do que Rogério Sganzerla, seu ex-marido, Helena me pareceu que assimilava o Ozualdo Candeias de ‘A Margem’. O filme dela tem planos deslumbrantes – ponto. De volta a ‘Todo Mundo’, o manifesto da vez foi lido por Pedro Cardoso, na qualidade de ator e produtor. Foram longos 10 minutos de leitura. Domingos não era o autor, mas, ao fundo, aprovava, com um meio sorriso que eu não sei se era provocador ou satisfeito. O manifesto é uma denúncia da permissividade que, segundo Pedro Cardoso, tomou conta do audiviosual brasileiro. No cinema e na TV, todo mundo tira roupa, ou os produtores exigem que as atrizes – principalmente elas – tirem a roupa para cativar a audiência masculina. Longe de mim querer defender a objetalização de atrizes – das mulheres em geral –, mas esta questão da pornografia é complicada. Assisti ao documentário ‘Nine to Five Days in Porn’ e o ponto é que aquela gente toda do pornô, entre uma penetração e uma ejaculação, tenta viver normalmente, brincando com as crianças, com o cachorro, indo às compras, arrumando a casa. Há uma desconcertante divisão entre trabalho e vida cotidiana no universo daquelas pessoas. De volta ao manifesto de Pedro Cardoso, ele disse que era uma coisa que já pensava há tempos, mas a questão ficou mais urgente porque sua namorada – quem? – tem de resistir a esses insistentes pedidos para tirar a roupa em nome da arte (ou do comércio?). Acho que existem aí umas 300 questões para ser debatidas, mas o que achei curioso é que, dois passos atrás do Pedro estava a Cláudia Abreu, atriz do filme, e que tem um nu frontal arrasador em ‘Os Desafinados’. Certamente que, interpelado, Pedro vai dizer que aí vale, que Walter Lima Jr. não está apelando etc. Só achei meio inusitado e fiquei pensando, cá com meus botões – será que vamos precisar de uma comissão que nos diga quando o nu vale, ou não? Saí correndo do Odeon BR para asssistir a ‘A Canção de Baal’ e, coincidência, o filme da Helena tem um nu frontal de Simone Spoladore. Helena, uma mulher guerreira, libertária, está objetalizando a Simone em nome do consumo? Não creio. Acho até que, na verdade, ela está querendo linkar com uma característica do cinema brasileiro que remonta à pornochanchada dos anos 70. Acho legítimas as preocupações de Pedro Cardoso, mas fiquei meio perplexo. Não compro ‘Playboy’ para ver a nua da vez – bem, vou querer ver a Cláudia Ohana –, e também vi nas cenas de nudez nos dois filmes referidos como parte do contexto, se bem que a Cláudia Abreu, pelamor de Deus… A questão é que Pedro Cardoso pediu e Domingos Oliveira concordou, que o filme deles, sobre problemas sexuais, não tivesse uma cena de nudez. Legal, pretendo conferir hoje. Provavelmente, não vai fazer falta nenhuma, porque o sexo nos filmes de Domingos Oliveira, a relação em geral, é muito ‘oral’ (no sentido de falada). Mas só para arrematar, Pedro Cardoso disse que é impossível expor a nudez da alma ficando nu em cena e que a outra é mais importante. Lembrei-me de Luchino Visconti, dizendo à tímida Florinda Bolkan, que tinha vergonha de tirar a roupa em ‘Os Deuses Malditos’, que o corpo dela era seu instrumento de trabalho e que, se tivesse vergonha de ficar nua, era melhor desistir do cinema. Lembrei-me de Matheus Nachtergaele, no debate sobre ‘A Festa da Menina Morta’ – do qual fui mediador –, contando como, para esvaziar a sala onde deveria fazer uma oficina de interpretação (ele esperava 30 pessoas,. apareceram mais de 100), mandou que todo mundo ficasse nu. Matheus começou dando o exemplo. Ficou em pêlo – tem circunflexo? – e, na seqüência, houve uma debandada geral. Lembrei-me de Nagisa Oshima, que fez com que seus atores em ‘O Império dos Sentidos’ não apenas representassem nus mas também que fizessem sexo frente às câmeras, dispensando dublês de corpos nas cenas de penetração. Pornografia? Arte. Dito isso, o manifesto de Pedro Cardoso inclui, como a mais nova pornografia do cinema brasileiro – e esta foi a parte que achei interessante e polêmica –, a figura do preparador de elenco, ou do amestrador de atores, como ele disse. Mas sobre isso vou falar mais tarde.