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Luiz Carlos Merten

06 Dezembro 2006 | 10h16

Fui ontem visitar Arnaldo Jabor na casa dele, um apartamento nos Jardins, para conversar sobre o (re)lançamento, depois de amanhã, de Tudo Bem e Eu Sei Que Vou Te Amar. Os dois filmes integram a trilogia entre quatro paredes, que Jabor não reconhece como trilogia. Foram os outros que criaram essa definição, ele diz, acrescentando que não há muita coisa em comum, exceto o fato de se passarem predominantemente em interiores, entre os três filmes. Tudo Bem é uma paródia da alegoria, concentrando os problemas do Brasil do fim dos anos 70 num apartamento em reforma. Eu Te Amo, que seria (ou é) o episódio intermediário, e Eu Sei Que Vou Te Amar tratam dos problemas do casal, são psicanalíticos até a medula dos personagens, e do autor. Jabor diz que, agora, Tudo Bem está como ele sempre sonhou. Em 1978, por falta de dinheiro, ele fez o filme a toque de caixa, sem o cuidado fotográfico que queria. As novas tecnologias (leia-se o digital) lhe permitiram corrigir a fotografia e até os enquadramentos, fazendo outro filme a partir do original. O mais curioso é que Tudo Bem foi profético das novas tendências. Aquele gringo interpretado pelo Pereio que, no desfecho, vende satélite, prenuncia os novos tempos que vão permitir a Tudo Bem chegar ao público com projeção digital, a partir de sexta. Apesar de todo o carinho que tem pelo filme, Jabor acha Eu Sei Que Vou Te Amar mais bem realizado. Não estou tão seguro disso, porque não revi o filme, tendo de fazê-lo agora com o público. Há, ainda, algo de alegórico na maneira discursiva como Fernanda Torres e Thales Pan Chacon vivem/discutem o amor e o sexo. Um épico intimista a dois, entre quatro paredes. Jabor havia dirigido Fernandona (Fernanda Montenegro) em Tudo Bem. Fernandinha, a filha, tinha 19 anos quando fez o filme dele e ganhou o prêmio de melhor atriz em Cannes. Fernandinha hoje está com 41 anos. Passaram-se mais de 20 anos e Jabor admira-se de como Eu Sei Que Vou Te Amar permanece visceral. Foi seu maior sucesso de público (5 milhões de espectadores), virou peça e tem sempre gente – jovem – pedindo para rever o filme ou ler a peça. O próprio autor gosta um pouco menos de Eu Te Amo. Reconhece que tem algo de oportunista, embora goste muito daquela idéia de incorporar a técnica (Sonia Braga e Pereio se gravam e vêem em videotape). Jabor acha graça quando lhe digo que ele faz gênero com essa coisa de querer ser odiado, mesmo que seja pela esquerda burra. Reconhece que ele próprio já foi esquerda burra. Não é contra Lula, era contra José Dirceu. No fundo, tem esperança de que o presidente, liberto da influência, faça um governo melhor. Na despedida, Jabor me deu um presente – Toma aqui a minha obra, disse. ‘Toda’ a obra audiovisual de Jabor cabe na caixa que a Versátil está lançando, com sete discos. O lançamento no Rio é hoje; na segunda é em São Paulo (conto depois onde vai ser). A produção audiovisual de Jabor sereia muito mais ampla se incluísse sua produção jornalística na Globo. Mas é estranho, ou pelo menos me parece, essa idéia de que ‘toda’ a obra pareça tão reduzida. Décadas de filmes, desde os documentários O Circo e Opinião Pública até as incursões pelos delírios da classe média, passando pela alegoria histórica de Pindorama, concentrados em sete DVDs!

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