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Luiz Carlos Merten

23 Janeiro 2010 | 11h03

Sai do filme – ‘Amor sem Escalas’ – meio deprimido e fui levantar o astral jantando com amigos. Comemorávamos, no restaurante francês da Capote Valente, o aniversário de Leila Reis. Parabéns! Vir de Paris e cair aqui diretamente num ‘restaurant’ pode parecer pouco imaginativo, mas foi ótimo e eu acrescento – vive la France! – que descobri somente ontem, no HSBC Belas Artes, onde assisti ao filme com George Clooney e a maravilhosa Vera Farmiga, que o conjunto de salas homenageia Eic Rohmer neste mês de janeiro. Não entendi muito bem, pela data, se a homenagem é póstuma ou se é mera coincidência e Romer já era o homenageado da casa em janeiro, com quatro filmes, um para cada semana do mês. Lembrei-me da entrevista com Christophe Honoré, o mais nouvelle vague dos diretores franceses atuais. Honoré me disse que não me iludisse e que boa parte do cinema francês que agora lamenta a morte de Rohmer na verdade o detestava e aos seus filmes, que mostravam que se pode ser inteligente, autoral e ter público fazendo filmes com poucos recursos (porque os filmes dele não precisavam mais). O cinema francês tem hoje a síndrome de Hollywood, observa Honoré, apostando em ‘grosses comédies’ e filmes de ação feitos com muitos recursos (e menos inteligência). Hélas! A caminho do aeroporto, na quinta-feira, correndo de um cinema para uma livraria e outra livraria, vi que havia saído a edição semanal de ‘Telerama’ com Rohmer na capa – ‘A Eterna Juventude do Cinema Francês’ -, mas não comprei e, após o check-in, me esqueci completamente. A revista talvez acrescentasse informações que pudessem ser úteis, mas de qualquer maneira recomendo o ciclo do Belas Artes. Na série ‘Lamento’, além do ‘Telerama’, tenho de acrescentar uma descoberta que fiz, já no avião. Havia comprado as edições de janeiro das revistas francesas de cinema – ‘Cahiers’, ‘Positif’, ‘Première’ e ‘Studio’ – e também numeros antigos de ‘Cahiers’ e ‘Positif’ que consegui encontrar em livrarias especializadas. ‘Positif’ tem uma seção intitulada Cinéma Retrouvé e o cinema reencontrado de janeiro é o de Gordon Douglas, num texto assinado por Jean-Pierre Coursodon, parceiro de Bertrand Tavernier na série ’30 (e, depois, 50) Ans de Cinéma Américain’. Coursodon compartilha do mesmo entusiasmo que eu por Douglas, o menos conhecido e mais desvalorizado dos grandes diretores do cinema (e não apenas Hollywood). Peguei a revista para ler suas observações sobre os westerns, policiais, biopics e até ficção científica que tanto amo, filmes como ‘Resistência Heróica’, ‘Rio Conchos’, ‘Revólver de Um Desconheciodo’, ‘Crime sem Perdão’ (The Detective), ‘O Mundo em Perigo’ (Them!) e até uma obra tão difícil de classificar como ‘Corações Enamorados’ (Young at Heart). Grande Gordon Douglas. Durante a semana que permaneci em Paris, quatro noites na Opéra e três no Quartier Latin, me concentrei nos numerosos cinemas, inclusive de arte e ensaio, que por ali existem. Nem me preocupei em verificar o que apresentava a Cinemateca Francesa, pois Bercy me parece muito fora de mão. Idiota. Algum motivo devia haver para ‘Positif’ estar ‘recuperando’ Gordon Douglas. Descobri no avião que de 6 de janeiro a 8 de fevereiro a Cinemateca Francesa realiza a mais completa retrospectiva jamais dedicada ao diretor, em todo o mundo. Nem me arrisquei a conferir no ‘Pariscope’ o que perdi. Ia ficar provavelmente mais deprimido do que na saída de ‘Amor sem Escalas’. Todo Gordon Douglas! E eu perdi!