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Luiz Carlos Merten

20 Fevereiro 2009 | 13h26

Mesmo não sendo leitor assíduo de ‘Cahiers’, não resisto a seguir comprando os exemplares da revista, que comecei a colecionar há mais de 20 anos, ainda em Porto Alegre. Dispenso as pensatas de Jean-não sei das quantas Frodon, mas adoro os textos de DVD de Jean Douchet e as crônicas norte-americanas de Bill Khron, quando a revista as publica. Como anda cada vez mais difícil encontrar os exemplares por aqui, tratei de atualizar minha coleção em Paris, mas não encontrei os exemplares de outubro e novembro. Comprei um deles ontem, na banca do Conjunto Nacional. Nem reparei o mês, fui pela capa, que não conhecia, uma imagem de ‘Pele de Asno’, de Jacques Démy. ‘Cahiers’ celebra o ‘coffret’ com a obra integral de Démy, que eu confesso que não vi, em minhas andanças pela Fnac da Bastilha e do Boulevard St. Germain. Todo Démy! Nunca vi ‘Lady Oscar’ nem ‘Une Chambre en Ville’, com Dominique Sanda e Richard Bérry, mas sou do time que gosta do diretor e acha que ele estava adiante de sua época. Lembro-me de Jefferson Barros escrevendo, em Porto, contra o lirismo, que considerava mentiroso, de ‘Os Guarda-Chuvas do Amor’ e do choque que tive ao rever o filme e perceber, sob aquela aparência de artificialidade – o filme cantado, romântico –, quanto é duro e como, no panorama francês da época, é uma raridade, ao encarar o tema da guerra da Argélia. Mas ‘Les Parapluies’ não é o Démy do meu coração. Amo o primeiro filme dele, ‘Lola’, ou a Odisséia vista pelo ângulo de Anouk Aimée, a mulher que espera, e até hoje tenho dificuldade para deglutir o acréscimo ao título que a distribuidora achou necessário fazer. ‘Lola’ virou, no Brasil, ‘A Flor Proibida’. Arre… Sempre que vou falar com Antônio Gonçalves Filho sobre Démy – e fui contar-lhe, agora, sobre o ‘coffret’ –, lembramos os dois da sequencia de ‘Lola’, que Démy realizou nos EUA, com o título de ‘The Model Shop’. Anouk Aimée vai para os EUA (Los Angeles) e se envolve com Gaery Lockwood, recém saído da nave Discovery, de Kubrick, em ‘2001, Uma Odisséia no Espaço’. ‘The Model Shop’´ ganhou um título brasileiro mais horroroso ainda, ‘O Segredo Íntimo de Lola’, mas é um filme lindo. A propósito, Agnès Varda acompanhou o marido nos EUA e ela própria fez filmes – documentários – muito interessantes sobre a contracultura (Panteras Negras, hippies etc) do período. Estou torcendo para que Amir Labaki traga ‘Les Plages d’Agnès’ para o É Tudo Verdade. O filme não é um documentário tradicional, mas é muito bonito e rico em informações sobre Démy, o marido amado de Agnès, de cujo culto até hoje ela é a maior incentivadora.

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