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Luiz Carlos Merten

08 Abril 2007 | 14h48

Não me lembro direito a origem, mas li uma vez, em algum lugar, que A Letra Escarlate era o único filme de Wim Wenders sem carros nem antenas de TV. A definição marcou. Wenders vinha dirigindo curtas desde 1967. Em 1970 e 71, fez os primeiros longas – Verão na Cidade e O Medo do Goleiro Diante do Pênalti. Em 1972, adaptou o romance clássico A Letra Escarlate, de Nathanael Hawthorne. Para um cineasta que já vinha investigando os signos da modernidade (e gostava da estrada), parecia meio estranho este mergulho no passado, mas Wenders sempre foi muito atraído pelos EUA e pela cultura americana e o romance de Hawthorne virou marco da identidade literária do país. Faz muito tempo que vi (só uma vez) A Letra Escarlate, mas se lhe dedico agora um post específico nem é tanto pelo filme, mas pela atriz Senta Berger, que faz Hester, a mulher adúltera forçada a usar a infamante letra escarlate por seu romance proibido com o reverendo Dimmesdale. Me peguei outro dia num devaneio, sonhando (de olhos acordados) com duas atrizes alemãs que fizeram carreira em Hollywood, nos anos 60. Uma delas era Elke Sommer, que fez Um Tiro no Escuro, a segunda aventura do Inspetor Clouseau, com direção de Blake Edwards. Elke era loira, linda e fazia um beicinho tipo Brigitte Bardot. Senta, a outra, era castanha e encarnava um modelo mais denso de mulher. Guardo dela uma excelente lembrança em filmes como Os Vitoriosos, Juramento de Vingança e The Quiller Memorandum, uma trama de espionagem escrita por Harold Pinter que nem o anódino diretor Michael Anderson conseguiu estragar. O filme se chamou, no Brasil, A Morte não Manda Aviso. Senta é genial (e faz parte do meu imaginário) em Juramento de Vingaça, superwestern de Sam Peckinpah, cujo título original é o mesmo do personagem interpretado por Charlton Heston, Major Dundee. É a história de um oficial da União que forma grupo, incluindo prisioneiros confederados, para tentar resgatar três crianças que foram seqüestradas pelos apaches na fronteira mexicana. O líder dos confederados chama-se Tyreen e é interpretado por Richard Harris. Parece saído de um western de John Ford, para provar a tese do grande diretor, sempre atraído pela grandeza dos derrotados. Major Dundee foi um filme de rodagem complicada. Peckinpah criou personagens complexos, mas os produtores queriam só um filme de ação. Implicavam com a idéia do diretor, que queria que o chefe apache nunca aparecesse. Peckinpah queria um inimigo que nunca fosse avistado, mas o filme foi remontado à sua revelia –e Charlton Heston, que ainda não havia virado o garoto-propaganda da Associação Americana do Rifle ridicularizado por Michael Moore em Tiros em Columbine, ficou do lado dele, batendo-se (e até trabalhando de graça) para que a versão do cineasta fosse respeitada. No final, Juramento de Vingança estreou com 35 minutos a menos e com inversões de personagens e situações que só têm paralelo, na história do cinema, no crime que a Fox fez ao remontar (e dublar) o monumento O Leopardo, de Luchino Visconti. Juramento de Vingança é genial, embora não seja tão famoso quanto Meu Ódio Será Sua Herança (The Wild Bunch). Expressa o tema central do autor – a coalizão pelo ódio, que faz com que, no seu cinema, negros e brancos, nortistas e sulistas, machos e fêmeas, todos os opostos ligados por um ódio mortal, se unam pela necessidade de sobrevivência. Esta foi uma noção que Peckinpah herdou de Samuel Fuller, que havia sido tão violento e desobediente em Hollywood, nos anos 50, quando ele seria nos 60. Senta Berger fica ali no centro daqueles dois homens que travam uma batalha surda. Dundee é rude e taciturno; Tyreen é um lorde inglês, um cavalheiro no Velho Oeste, mas não são estereótipos. Ambos estão sempre surpreendendo o espectador e Senta é maravilhosa, envolvendo-se naquela manta como quem busca proteção, com medo de expressar a própria vulnerabilidade. Eu amava Senta Berger e agora ela está, aí, de volta, neste velho filme de Wenders. É sempre bom poder falar bem daqueles a quem a gente a quem admira (eu acho). Aliás, a respeito das mulheres de Wenders, falei no post anterior de Nastassia Kinski em Movimento em Falso. Nastassia era tão linda! Wenders lhe deu aquele papel magnífico em Paris, Texas. A anti-Odisséia. Ulisses e Telêmaco, Travis e o filho, buscam a mãe que caiu na estrada e virou prostituta naquele peep-show. Grande Nastassia, grande Senta. Aliás, descobri somente agora que Solveig Dommartin, ex-mulher de Wenders e a trapezista de Asas do Desejo, morreu em janeiro, do coração, com 40 e poucos anos. Que coisa! Todas as mulheres de Wenders. Espero que Paris Texas, Asas do Desejo e Tokyo-Ga (sobre a paixão de Wenders por Ozu) venham no próximo pacote da Europa.