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Luiz Carlos Merten

07 Abril 2010 | 15h58

Ganhei hoje meu dia e quem ‘mo’ ofertou – falando como o ex-presidente Jânio Quadros, Deus  me livre – foi meu colega Ubiratan Brasil. Dib Carneiro estacva diagramando, perguntou para o Bira qual era o nome de sua retranca (matéria), ele respondeu, também gritando, ‘Platero!’. Incontinente, alcei minhas orelhas. Que Platero é esse? ‘Platero e Eu’, de Juan Ramón Jimenez. A Martins Fontes está comemorando seu 50º aniversário com uma edição bilíngue deste clássico da língua espanhola. Vocês já sabem, porque em algum momento da história do blog me lembro de ter feito uma ilação entre o burrico de Jimenez e o Balthasar de Robert Bresson, em ‘A Grande Testemunha’.  Contei ao Bira que ‘Platero’ preencheu o imaginário de minha infância e juventude. O livro havia sido publicado pela Editora Globo, senão me engano na Coleção Catavento. Virou um dos cults, com os exemplares de ‘Tarzan’, de Edgar Rice Burroughs, que eu consumia avidamente na época (como até hoje leio e releio, por puro prazer, ‘Maigret’ e Agatha Christie, seja Poirot ou Miss Marple). ‘Platero’ não é, nunca foi, um livro ‘infantil’, embora Jimenez, ao se debruçar sobre a sua ligação com o burrico de seus verdes anos, esteja usando a perspectiva de homem maduro para falar… De quê? De tudo. O Bira, gentilmente, me sdeu o exemplar dele, de capa dura, fartamente ilustrado  9por Javier Zabala). Fui direto aos últimos capítulos.  ‘Para Platero, no céu de Moguer’ – ‘doce Platero trotador, burrinho meu, que tantas vezes levaste minha alma, só minha alma, por aqueles vrecônditos caminhos de nopais, de malvas e madressilvas; para ti este livro, que fala de ti, agora que podes entendê-lo.’ e o derradeiro, ‘Platero de papelão’, em que o autor conta que, quando o pedaço de livro que havia escrito começou a correr mundo, uma amiga, do burrinho e dele, deu-lhe de presente um Platero de papelão, que pousou em seu escritório. ‘Como é vil a memória do coração humano! Este Platero de papelão me parece hoje mais Platero do que tu mesmo, Platero…’ Juro que eu sabia de cor essas frases que estavam soterradas lá no meu inconsciente. Ninguém mais falava de Juan Jamón Jimenez. Ele ganhou o Nobel lá pelos anos 1950, embora ‘Platero e Eu’ tenha sido concluído em, Madri, em 1915. O livro possui uim significado especial para mim. Não espero que tenha o mesmo para vocês,. embora espere, sim. Leiam ‘Platero e Eu’. leiam ‘A Flor do Caminho’, capítulo L. ‘Como é pura e bela, Platero, esta flor do caminho! Por ela passam todos os tropéis – os topuros, as cabras, os potros, os homens – e ela, tão terna e tão débil, continua ereta, malva e esbelta, em seu valado solitário, sem se contaminar com impureza alguma.’ Tanta beleza, tanta poesia…