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Cultura » Toda força aos latinos!

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Luiz Carlos Merten

23 Julho 2007 | 16h05

Quando começo a postar não quero mais parar. Uma coisa leva a outra, a outra, a outra e… Por exemplo, falei do Burman que veio para a inauguração, hoje, do 2º Festival do Cinema Latino-Americano, no Memorial da América Latina. Como alternativa cultural a Hollywood, como antecipação de novas tendências e revisão de obras que a maioria do público, principalmente os jovens, desconhece, o evento é o máximo. Vamos ter uma retrospectiva do Paul Leduc e eu recomendo dois filmes deste diretor mexicano – Reed, México Insurgente e Frida, Naturaleza Viva. São bem melhores do que O Cobrador, que ele fez com Lázaro Ramos e estará na competição, em Gramado, depois de passar no Festival do Rio, em 2006. Há uma seção de filmes novos de toda a América Latina, uma sobre como o Brasil vê a América Nuestra, uma homenagem a outro mexicano ilustre, Gabriel Figueroa. Ele foi um mestre do preto-e-branco e, embora suas fotografias para Emílio ‘El Índio’ Fernández pareçam hoje esteticistas demais, seu trabalho com Buñuel foi notável e sua influência sobre o cinema mexicano indiscutível. Dessa programação fazem parte Los Olvidados e Nazarín, do Buñuel, e filmes menos conhecidos, como Vamos com Pancho Villa, de Fernando de Fuentes; Enamorada, de Fernández – que foi também ator, fazendo o avassalador general Mapache de Meu Ódio Será sua Herança, de Sam Peckinpah –; Macario, de Roberto Gavaldón, e Animas Trujano, de Ismael Rodriguez. Macario é um filme bizarro sobre um sujeito, um camponês, que consegue falar com a Morte, que ele é o único a ver na cabeceira dos moribundos. O filme deve ser de 1960/61 e a concepção da Morte com certeza foi influenciada pela de Bergman em O Sétimo selo. Na época, confesso qure me impressionei com o visual, com todos aqueles círios que iluminam as cenas, e com o casal protagonista, Ignazio Lopes Tarso e Pina Pellicer, que fez A Face Oculta com Marlon Brando e se matou. Esse suicídio sempre me impressionou muito, porque achava a Pina muito intensa como atriz. Tem uma cena dela com a Katy Jurado em A Face Oculta, que é o máximo. Pina se chama Luisa e acaba de ser desvirginada pelo Brando, que está querendo se vingar do padrasto dela, seu inimigo. Katy pergunta, com toda delicadeza – “Por qué lo hiciste Luisa?” – e o silêncio da outra, as suas lágrimas são tão eloqüentes que as palavras se tornam desnecessárias. Animas Trujano sempre me pareceu muito curioso, porque o ator japonês dos filmes de Kurosawa, Toshiro Mifune, faz um camponês mexicano bronco, mas não creio que seja um grande filme. Em outras sessões, identifico uma meia-dúzia de obras que acho fundamentais – Crónica de Un Niño Solo, de Leonardo Favio; Boquitas Pintadas, de Leopoldo Torre-Nilsson, adaptado do livro de Manuel Puig, os dois da Argentina; Yawar Malku, de Jorge Sanjines, da Bolívia; O Castelo da Pureza, de Arturo Rupstein, mais um mexicano; e, acima de todos, um filme que eu já falei aqui mil vezes que eu amo e vocês vão poder conferir – El Chacal de Nahueltoro, de Miguel Littín, do Chile. No total, o festival exibe 120 filmes de 16 países. O ideal seria ver todos, mas como é impossível, ficam essas sugestões. E não se esqueçam dos debates – sempre sai coisa boa da discussão sobre o que nos une e separa do restante da América Latina.

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