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‘Independência’

Luiz Carlos Merten

19 Outubro 2009 | 10h50

Voltei ontem de Minas depois de (re)ver ‘Independência’, de Raya Martin, que teve sua pré-estreia nacional na Mostra Cine BH. Já é, antecipadamente, o melhor filme da Mostra Internacional de Cinema, que começa quinta. Aliás, fui procurar agora por ‘Tetro’, de Francis Ford Coppola, e não encontrei o filme numa lista parcial que tinha – a final foi fechada na sexta-feira. Podem ir anotando. ‘Independência’, ‘Tetro’, ‘As Praias de Agnès’ (de Agnès Varda) – o melhor do cinema em 2009 passa por aí e também por ‘Anticristo’, ‘Bastardos Inglórios’ e ‘O Curioso Caso de Benjamin Button’. Aliás, outro dia um leitor do Estado – e do blog – reclamou que Luiz Zanin Oricchio e eu nunca damos cotação máxima, no guia do jornal, para filmes novos. As cinco estrelas ficam reservadas para clássicos e eu entendi que o leitor acha essa prudência excessiva, como se a gente não estivesse querendo se comprometer. Mas eu tenho dado várias cotações máximas – como há uma média entre o que Zanin e eu pensamos, isso relativiza as cotações (tenho certeza que ele vai dizer a mesma coisa). Nos últimos tempos, só para citar alguns casos, tenho dado a cotação máxima para ‘Benjamin Button’, ‘Zodíaco’, ‘Ratatouille’, ‘Santiago’… Já dou agora, antecipadamente, para ‘Independência’. Curioso – já acrescentei aqui um post sobre a expectativa em torno de ‘Avatar’, que está sendo apontado como o futuro do cinema, pelo menos do ponto de vista da indústria. É só o que se fala. E se o futuro não estiver no extremo desenvolvimento tecnológico de James Cameron e sim, no recuo de Raya Martin, que volta às pesquisas estéticas – idade da pedra cinematográfica – de Georges Meliès? ‘Independência’ é tudo ou nada. O filme passa-se nas Filipinas, no começo do século passado. Os norte-americanos estão chegando e uma mulher foge com o filho para a floresta. Instalam-se numa cabana. O garoto encontra uma jovem na floresta. Leva-a para casa. Ambos têm um filho. A floresta é estilizada – o fundo é sempre artificial, um telão pintado (em preto e branco). Só no final há um efeito colorido. Não quero antecipar nada para não tirar a graça da descoberta, mas o filme suigere uma mistura de ‘Hamaca Paraguaya’, de Paz Encina, com ‘Mal dos Trópicos’, de Apitchatpong Weerasethakul. Boa parte da ‘ação’ se faz diante da cabana, como o teatro armado para o casal de velhos no filme da paraguaia Paz Encina. E, como no filme do tailandês Weerasethakul, há um mistério, um fascínio da floresta, com a diferença de que a do filipino Martin é artificial e Apitchatpong filmou numa floresta de verdade. Vocês devem se lembrar de ‘Maladie Tropical’. O filme começava com a história dos dois sujeitos na aldeia, uma história de atração homo e, de repente, aquilo acabava abruptamente e ‘Mal dos Trópícos’ prosseguia com a metáfora do caçador e do tigre na floresta. Em ‘Independência’, sem mais nem menos, também entra um cinejornal, rompendo a narrativa. É um filme que me faz viajar. E tem gente que acha que seus joguinhos de internet e videoarte são ‘pesquisa’. Pelamor de Deus! Aproveito não propriamente para retificar algo que escrevi ontem. Todo mundo detestou ‘Plastic City’. Eu ainda estava tentando articular um pensamento sobre o filme, porque não consegui entender as várias frentes da narrativa, mas havia achado o visual intrigante. Nada como um Raya Martin para (re)colocar as coisas em perspectiva. By-bye, ‘Plastic City’. Se vai ser o futuro do cinema, não sei – existem muitos futuros, mas só quem vir viverá -, a verdade é que ‘Independência’ me encantou.

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