Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Buñuel, Oliveira e a Belle Toujours

Cultura

As informações e opinões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Cultura

Buñuel, Oliveira e a Belle Toujours

Luiz Carlos Merten

26 Outubro 2006 | 21h20

Passei um dia tão infernal, primeiro enfrentando o trânsito da Marginal, que estava particularmente caótico, e depois correndo para atualizar o visto para os EUA, que nem tive tempo de postar muita coisa. Só o texto sobre Hamaca Paraguaya, com uma ponte para Honor de Cavalleria. Perdi a chance de recomendar o que me parecia o superprograma desta quinta-feira. O Arteplex começou com A Bela da Tarde, prosseguiu com o documentátrio Conversas no Porto – Manoel de Oliveira e Agustina Bessa-Luís, e chegou a Belle Toujours – Bela Sempre, a releitura que o quase centenário mestre português fez da obra de Luis Buñuel. Não sei se já confessei aqui que não era muito devoto do surrealismo de Buñuel, quando comecei a escrever, em Porto Alegre, no fim dos anos 60. Preferia qualquer filmeco do Ricardo Freda (Ricardo quem?), para desespero do Paulo Fontoura Gastal, que se assinava P.F. Gastal (ou então Calvero, em homenagem ao herói do Chaplin em Luzes da Ribalta) e era a figura patriarcal da crítica gaúcha, naquela época. Só comecei a gostar mesmo do Buñuel em 1972, quando vi O Discreto Charme da Burguesia, mas A Bela da Tarde já tinha me bagunçado. O espectador que vê hoje o filme analisa o sexo, a perversão, o inconsciente, mas em 1967 era a coisa semiológica, a questão da linguagem que me siderava. Buñuel era, ali, contemporâneo do Bergman de Persona (Quando Duas Mulheres Pecam, outro choque). Aquilo me parecia o cúmulo da ousadia – uma narrativa em bloco, misturando tudo, passado, presente e imaginação, flash-back e flash-forward, para expressar a mente de Sévérine. E havia a atriz, Catherine Deneuve, de quem Buñuel descobria a perversão por trás da aura angelical. A Bela da Tarde foi meu primeiro grande Buñuel. E agora vi a releitura do Oliveira, um filme completamente fora de série e de esquadro. Oliveira adora a palavra, mas, como escrevi hoje no Caderno 2, sua mise-en-scène não se constrói no dinamismo dos diálogos, como a do Mankiewicz em A Malvada, por exemplo. Oliveira cria, ou recria, o tempo. O filme dura 70 minutos, tem duas ou três grandes cenas de diálogos (no bar e no salão onde Piccoli e Sévérine, interpretada por Bulle Ogier, finalmente se encontram). Os temas são a perversão, a ascese, a religião, o sexo, como na cena do jantar em Espelho Mágico, o Oliveira anterior. Ele trabalha as cenas quase em tempo real, o concerto, as caminhadas, mas tem todas aquelas rupturas de tempo e espaço. Fica horas naqueles planos de Paris, de dia, de noite, uma coisa de cartão postal que seria horrível em outros diretores. Não sei, realmente (acho que vou ter de ver o filme muitas vezes), de onde vem o encanto e a vivacidade que Belle Toujours tem, ou teve para mim. Me diverti muito, me emocionei. É um grande filme e o diálogo do Oliveira com a roteirista dele no documentário ajuda a entender o método, o sistema de pensamento e criação do grande artista que ele é. Aproveito para esclarecer um erro na minha matéria no Estado. Sabia que Catherine Deneuve não quis interpretar Sévérine. Por que? Perguntem-lhe a ela, respondeu Oliveira em Veneza, segundo me contou o Zanin, meu colega Luiz Zanin Oricchio, enviado do Estado àquele festival. O erro é que achei que Belle Toujours havia concorrido em Veneza (onde A Bela da Tarde ganhou o Leão de Ouro, há 39 anos). Achei que o júri presidido por Deneuve não havia querido premiar o Oliveira. Zanin me esclareceu que o filme passou fora de concurso, mas nem ele conseguiu explicar o enigma. Por que Deneuve, que tem trabalhado tanto com Oliveira, não voltou ao papel, entregue a Bulle Ogier? Catherine não fez nenhum comentário. De minha parte, acho que foi mais ou menos a reedição de O Obscuro Objeto de Desejo, quando Buñuel alternou duas atrizes no mesmo papel (como se fossem uma). Deneuve e Bulle Ogier são uma só Sévérine, na verdade duas, porque a personagem mudou bastante. Terminou sendo melhor para o próprio Oliveira, embora Catherine Deneuve fosse um chamariz mais vistoso de bilheteria.