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Cultura

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Luiz Carlos Merten

17 Setembro 2006 | 13h05

Fui ver Abismo do Medo pressionado por meu editor no Caderno 2, Dib Carneiro, que me cobrou uma crítica do filme que a concorrência andou chamando de ‘melhor terror do ano’. Lá fui eu ao Cinemark do Center Norte – foi minha estréia naquela sala, que ainda não não conhecia, por sinal. Sala enorme, cheia de adolescentes no sábado à noite. Foi curioso ver como eles estavam impacientes. O filme demora muito para começar a provocar sustos. Sabendo disso, o diretor Neil Marshall arma cenas falsas, só para aquecer e distrair – a revoada de morcegos, por exemplo. Não me impressionei muito com Abismo do Medo, mas acho que existem aspectos interessantes. O filme conta a história de seis amigas e de como o grupo se desintegra. Logo na abertura, elas descem as corredeiras de um rio perigoso e existem indicações de que uma delas está tendo alguma espécie de ligação com o marido de outra. Ocorre um acidente violento e um ano depois as amigas se reúnem para visitar uma caverna. É um filme sobre mulheres, a caverna representa o útero. Abriga medos primitivos e o diretor, consciente disso, explora a irracionalidade do medo, sem fornecer a menor explicação sobre quem são aqueles seres que habitam nas trevas. Na verdade, como nos pássaros do Hitchcock, eles vão ser a extensão e a representação dos conflitos humanos, quando a história de traição e adultério finalmente aflorar. Não gostei de Abismo do Medo. Não tenho mais muita paciência para filmes com esse tipo de bizarrice, com esses seres que, obviamente, são crias daquelas deformações que Peter Jackson criou na série O Senhor dos Anéis, para definir os perigos do mundo fora dos limites da Terra Média. Não agüento mais esse timing – já que o público não pode esperar, vamos logo dar um susto aqui, outro ali, sem muito a ver com o que realmente interessa. Pessoalmente, o filme mais assustador que vi nos últimos anos talvez tenha sido Os Outros, de Alejandro Amenábar, com Nicole Kidman. Dei um pulo no cinema, na cena do armário, com o morto lá dentro. Revi na TV paga e, mesmo esperando a imagem, o coração disparou. Esse tipo de emoção muito violenta eu tive com Psicose, do Hitchcock, com Os Sete Crimes Capitais, do David Fincher, não com Abismo do Medo. Mas uma coisa é certa – Neil Marshall não é burro. Faz uma terapia de choque com a platéia. O pior medo não é do irracional, do desconhecido, mas do conhecido (no filme, a amizade), quando revela sua face inesperada (a traição). Contra esse, não há segurança que nos tranqüilize no escurinho do cinema.