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Luiz Carlos Merten

16 Dezembro 2008 | 19h08

Felipe Brida aponta a direção, mas não dá o mapa da mina. A que horas passa ‘E o Sangue Semeou a Terra’ no TCM? Falei no outro dia sobre Anthony Mann, depois de assistir a ‘Winchester 73’ na TV paga e voltei a citá-lo como o sr. Sara Montiel, pelo período em que estiveram casados (e ele fez o mais belo dos épicos, ‘El Cid’, por amor a ela – gosto de fantasiar – e à Espanha). Mas ‘E o Sangue Semeou a Terra’ é fora de série. Segundo dos cinco westerns do diretor com o astro James Stewart, chama-se ‘Bend of the River’, no original. Não sei se poderia dizer que é o meu favorito, porque a dobradinha Mann/Stewart foi f… e eu não consigo escolher entre o citado ‘Winchester’, ‘O Preço de Um Homem’ (The Naked Spur), ‘Um certo Capitão Lockhart) e justamente o cartaz de hoje da TV paga. A situação é típica de um western de Mann. Jimmy Stewart faz o ex-bandoleiro que tenta viver com retidão. Ele serve como guia de uma caravana para o Oregon, tentando manter seu passado oculto. É sempre a tragédia do herói manniano – o passado que ele tenta esconder não apenas vem à tona como o força a pegar em armas em busca de vingança. Aqui, a oposição é entre Stewart e Arthur Kennedy, outro pistoleiro com um passado – e que escolhe um caminho oposto ao do protagonista, que leva ao confronto inevitável. Em seu verbete sobre Anthony Mann, Jean Tulard, no ‘Dicionário de Cinema’, cita Bertrand Tavernier e Jean-Pierre Coursodon e diz que os bangue-bangues do autor representam o que o gênero produziu de mais perfeit e puro. Faz tempo que não (re)vejo ‘E o Sangue Semeou a Terra’, mas sempre me impressionou muito que o roteiro de Borden Chase, um dos grandes especialistas do gênero, seja tão bem escrito. Existem momentos de diálogo entre Stewart e Kennedy em que um parece prever (ou antecipar) o que o outro vai dizer. Podem-se fazer pontes curiosas. John Ford fez westerns para mostrar quanto custa construir uma civilização. Sam Peckinpah para mostrar que a violência era a única alternativa para personagens – pistoleiros – convictos de pertencerem a um mundo crepuscular. O mundo, nos westerns de Mann, também está em transformação. O Velho Oeste está morrendo ou se civilizando, e os heróis do diretor em geral não têm nem tempo em decidir o que fazer da vida, porque o passado lhes determina o rumo. É um universo sombrio, de tragédia, que se prolonga em ‘O Homem do Oeste’, último western do diretor, com Gary Cooper. É como se os dois filmes se cruzassem e os respectivos mocinhos dessem prosseguimento às angústias que os consomem. Reparem que do elenco participam Julie Adams e Rock Hudson – que já fizera um índio em ‘Winchester 73’ e teria de esperar mais um par de anos para iniciar a série de (sublimes) melodramas de Douglas Sirk. Quanto a Julie Adams, a estrela que incitava o desejo do ‘Monstro da Lagoa Negra’ no cult de Jack Arnold possui uma das mais extensas filmografias de Hollywood nos anos 40 e 50. Usei a classificação de ‘estrela’, mas Julie sempre foi mais modesta, construindo sua carreira no filme B, mesmo tendo sido dirigida por mestres da importância de Anthony Mann, Budd Boetticher e Raoul Walsh. Grande dica, Felipe. Só espero que ainda dê tempo de a gente assistir a este belo Mann.