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Cultura

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Luiz Carlos Merten

15 Agosto 2006 | 15h39

Por Luiz Carlos Merten
Antônio Fagundes recebe hoje à noite o troféu Oscarito, que o Festival de Gramado dedica, todos os anos, a uma grande personalidade do cinema brasileiro. Ninguém é mais global que Fagundes e o festival havia prometido, para 2006, uma mudança de perfil, privilegiando a discussão do cinema sobre o glamour do tapete vermelho. Justiça seja feita – o homenageado do 34° festival com o troféu Oscarito encarna o lado mais glamouroso de Gramado, mas Fagundes, além de ser global, é ator e de grandes papéis em filmes importantes.
Seu sucesso é inegável. Havia mais gente na porta do Palácio dos Festivais para vê-lo, ontem à noite, do que a qualquer outra personalidade do cinema. Aonde vai, Fagundes é adulado, fotografado, pedem-lhe autógrafos. O assédio é constante. Não é nenhum desdouro para Andrea Tonacci, o principal concorrente brasileiro da noite da inauguração, que passou despercebido na entrada do palácio. Tonacci concorre ao Kikito com Serras da Desordem. Uma enquete feita com o público na porta do cinema deu que a maioria nunca tinha ouvido falar do cara e alguns até achavam que Andréa era nome de mulher. Gramado, aos 34 anos, fornece um belo cenário, mas ainda não conseguiu formar uma cultura de cinema na serra gaúcha.
O que mudou desde que Fagundes começou a fazer filmes, há quase 30 anos? “A gente sempre fez cinema contra alguma coisa. Continuamos fazendo com problemas de público, de orçamento, de mercado em geral, mas há uma vantagem – há 30 anos havia a censura do regime militar e agora, pelo menos disso, estamos livres.” O que representa o troféu Oscarito para um ator que, segundo os próprios cálculos, já ganhou cerca de 30 prêmios por sua atividade no teatro, cinema e televisão? “Acho que a comédia é sempre alvo de preconceito dos críticos, como se fosse uma coisa menor, o que não é. Aristófanes é menos lembrado do que Sófocles e Ésquilo embora subsistam mais obras dele do que dos outros dois. Shakespeare é mais popular do que Molière. Fazer humor é difícil. Exige talento e uma noção muiito precisa do tempo. O troféu Oscarito me honra porque, além de tudo, ele era um gênio do humor e um cara com grande capacidade de improvisação.”
Fagundes está atualmente com a peça As Mulheres da Minha Vida, em cartaz. É um texto de Neil Simon, dirigido por Daniel Filho, com o qual ele já alcançou a marca de 150 mil espectadores. “Gosto de dizer que o teatro é a pátria do ator e fazê-lo é uma necessidade interna. Quanto ao sucesso da peça, acho que é a prova dos problemas que o cinema enfrenta no País. O teatro é tradicionalmente considerado elitista, enquanto o cinema é um meio popular, mas somente quatro filmes, entre os 33 que foram lançados este ano, fizeram mais do que 150 mil espectadores. Teve um que fez menos do que 50 pagantes. Quer dizer, nem a família do cara que fez foi ver o filme. Quero continuar fazendo teatro e TV, mas precisamos levar o público para as salas de cinema.”