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Luiz Carlos Merten

08 Julho 2008 | 15h22

Vou pegar carona numa coisa que disse o Zanin, meu colega Luiz Zanin Oricchio, no domingo, em Paulínea, quando participamos daquele debate que não houve, sobre o cinema brasileiro e a mídia, porque Rubens Ewald Filho, o meneur du jeu, trocou o script na última hora e transformou nossa participação em relatos na primeira pessoa sobre a experiência de cada um. Só me interessa uma frase. Zanin disse que, como todo mundo, gosta do cinema norte-americano clássico, e citou o filme noir, como o Rubens talvez citasse o musical (essa parte é afirmação minha). Acho, realmente, impossível tentar negar a importância do cinema norte-americano clássico porque, goste-se ou não, e à margem de toda ideologia, o bê-à-bá da linguagem cinematográfica foi formatado por Griffith em ‘O Nascimento de Uma Nação’, de 1915, e consolidado por Orson Welles, 26 anos mais tarde, em ‘Cidadão Kane’. Naturalmente que gosto de filmes noir, mas é uma relação pontual, não com o gênero, em si. Prefiro mil vezes o western, que ideologicamente talvez seja mais polêmico. Afinal, vai nele embutida a justificativa ideológica para a conquista sangrenta do Oeste, mas a verdade é que acho que o filme noir, com seus códigos de linguagem, à medida que se estratificavam, foi ficando cada vez mais artificioso e virou emblema da pós-modernidade, que não é minha preferência cinematográfica, por mais que esteja disposto a defender a trilogia da cortina vermelha de Baz Luhrmann. Já o western, dos clássicos (Ford, Hawks e Walsh) aos modernos (Anthony Mann) e aos desmistificadores (Peckinpah), é um gênero que concentra em si o esplendor e a miséria da ‘América’. No mesmo debate, a mulher do Zanin, Maria do Rosário Caetano, citou o historiador Eric Hobsbawan, que dizia que a seqüência da escadaria de Odessa era a mais influente da história do cinema, um pouco como explicação para o seu favoritismo por ‘O Encouraçado Potemkin’. Os seis minutos da escadaria de Odessa são um marco do cinema e exerceram – exercem – uma influência considerável, que ultrapassa os limites do cinema e chegam a outro ‘departamento’ do audiovisual, o noticiário de TV, que a gente quase não se dá conta, mas é pura assimilação de Eisenstein. De minha parte, e sem entrar no mérito estético nem ideológico – só como constatação –, diria que décadas depois de Odessa veio o assassino de Marion Crane na ducha de ‘Psicose’, de Alfred Hitchcock, e aquelas mais de 70 posições de câmera para apenas 40 segundos de filme passaram a exercer uma influência ainda maior para o cinema que se faz hoje – e, obviamente, não é o da época de Eisenstein. É curioso que Brian De Palma seja o único diretor, em toda a história do cinema, a trafegar entre as duas seqüências emblemáticas’, tendo reconstruido a ducha de Hitchcock em vários thrillers e Odessa em pelo menos um, mas a cena é grandiosa em ‘Os Intocáveis’. Quero dizer que amo o cinema brasileiro, porque é o que tem a minha cara, o que melhor me representa na tela, mas nunca me senti tentado a excluir, nem por ideologia, o cinemão de Hollywood. ‘Batman – O Cavaleiro das Trevas’, que vi hoje, é um filme que me perturba tanto quanto estimula. Amo esses diretores malucos que conseguem usar a máquina de Hollywood para expressar seu imaginário. ‘O Cavaleiro das Trevas’ é um filme-evento e a empresa produtora e distribuidora Warner anuncia mais operações de merchandising associadas à marca do que são necessárias para manter o capitalismo funcionando por mais não-sei-quantos-anos. Isso é verdade – e um motivo para crítico de esquerda, de carteirinha, repudiar o novo Batman, mas o filme é magnífico, uma obra autoral, como o mais radical cinema de autor brasileiro, ou europeu, consegue ser. Justamente essa ambivalência, essa contradição é que torna as coisas complexas. O Batman de Christopher Nolan, o Homem Aranha de Sam Raimi, são coisas maravilhosas e me impedem de condenar em bloco o cinemão porque provam – sinto muito por quem pensa o contrário – que, mesmo ali dentro, há vida inteligente (e crítica). Nolan e Raimi não são meros artesãos numas linha de consumo (como Paul Verhoeven também não é). São artistas que pensam o mundo, e lutam, como qualuer outro, para se expressar. Posso experimentar (certo) desgosto pelo mundo como está formatado, competitivo, exclusivo e violento – não é o que eu nem a minha geração sonhávamos em 68 –, mas é inexorável e é preciso trabalhar, tentar ser lúcido e crítico, com os pés no chão, não com a cabeça nas nuvens. Isso está ficando muito comprido. Páro por aqui e não sei se retomo o blog hoje. Tenho muita coisa para fazer – entrevistas, matérias e até um show para ver à noite. Se não voltar hoje, amanhã a gente se fala.

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