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Mas por que tem de ser sempre assim?

Luiz Carlos Merten

07 Julho 2008 | 12h49

Voltei agora ao meu ‘Visconti’, o livro de Monica Stirling, com suas informações que não cessam de me enriquecer (e surpreender). Don Luchino enfrentou todos aqueles problemas com a censura, no lançamento de ‘Rocco’. Mas ele já tinha enfrentado outros problemas antes, durante a realização. Visconti queria rodar a cena do assassinato de Nádia num lugar específico de Milão, mas o Commendatore Carmelo Spagnuolo, vigilante chefe de censura, invocou leis municipais para que ele não pudesse usar o parque que queria, sob a alegação de que aquele era um lugar freqüentado por gente saudável e que o cineasta queria conspucar com sua tragédia meridional. Visconti teve de buscar outro lugar, e o cenário se revelou perfeito, como se pode confirmar em DVD (às vezes, o ‘mal’ contribui, dialeticamente, para que se concretize da melhor forma justamente aquilo que tenta evitar). Na seqüência do filme, Visconti voltou ao teatro e montou ‘L’Arialda’, de Giovanni Testori. A peça foi considerada obscena pelo Ministério Público, o que levou o grande diretor e os atores Paolo Stoppa e Rina Morelli a irem ao próprio presidente Giovanni Gronchi em busca de autorização. Gronchi integrara a resistência com Visconti, durante a 2ª Guerra, como representante do Comitê de Libertação Nacional. A peça foi liberada e apresentada em Roma com sucesso. Levada a Milão, para iniciar uma turnê nacional, o Commendatore valeu-se de novo de leis locais para interditar a peça, o que terminou levando à dissolução da companhia Stoppa-Morelli-Visconti, mas não é essa a história que quero contar. Sob a alegação de que se tratava de um oceano de obscenidades sem um pingo de arte, Spagnuolo tanto fez que a primeira apresentação de ‘L’Arialda’ em Milão foi também a última. A história – esse baluarte da moralidade foi exonerado da função pública, pouco depois da morte de Visconti, sob fundamentadas acusações de corrupção. Mas por que tem de ser sempre assim?

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