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Cultura » A love story de Bergman

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Luiz Carlos Merten

28 Junho 2008 | 11h30

FARÖ – Desisto de explicar para vocês como se pronuncia o nome da ilha de Bergman. Uns dizem Fiu-rô, outros Fur-rô, mas é por aí. Não sei nem se vou conseguir acrescentar hoje este post. As comunicações são precárias. Não existe wi-fi em Far”o, não temos nem telefone no hotel em que estamos. Aliás, agora pela manhã não havia nem luz nem água. Mas o lugar possui uma magia própria e dá para entender por que Bergman se encantou e escolheu este lugar para viver (e filmar). Uns dizem que ‘Far’ quer dizer carneiros e ‘Ö’ é ilha, portanto ilha dos carneiros, das ovelhas. Os rebanhos vivem soltos por aqui, mas jah ouvi tambem que a definicao correta eh ilha do viajante e que, no passado, o lugar foi esconderijo de piratas. A ilha é muito verde, cheia de velhos moinhos e com praias de rochas e cascalhos nas quais não se vê ninguém. Para um misantropo, alguém que adora se recolher para meditar, produzir e criar, imagino que fosse (ou seja) o paraíso na Terra, mas realmente esse tipo de Éden não funciona para mim. Acho bonito, mas quero voltar para a minha confusão. Conheci gente muito bacana, os diretores Margarethe Von Trota – já a havia entrevistado em Berlim – e Jan Troel, e principalmente ouvi algumas histórias curiosas e divertidas sobre Bergman. Ele era um péssimo motorista e dirigia seu Land Rover pelo meio da estrada, o que forçava todo mundo – carros, bicicletas ou, simplesmente, pedestres a se jogarem para os cantos quando ele vinha a toda. Bergman preparou cuidadosamente o próprio funeral. Escolheu o local da sepultura, no canto de um pequeno cemitério próximo à igreja local – que é de pedra -, escolheu a música e até determinou que só seus amigos de Farö poderiam levar o caixão. As pessoas contam que ele foi muito bem assimilado aqui e os locais até o protegiam. Qualquer estranho que chegasse perguntando pela casa de Bergman, eles apontavam para todo lugar, menos o correto, e ninguém dizia nada. Há uma história linda. Bergman casou-se várias vezes. A última mulher, Ingrid – homônima da atriz Ingrid Bergman -, morreu há cinco ou seis anos. Ele morava sozinho, desde então. Ingrid foi enterrada no arquipélago, mas Bergman pediu que, após a morte dele, ambos fossem reunidos naquele canto de cemitério. Ingrid Bergman foi exumada e trazida para cá. Bergman, tão crítico do casamento, tão cético quanto às possibilidades de entendimento entre as pessoas, deu sua derradeira declaração de amor desta forma – escolhendo com quem ser enterrado. Não sei de vocês, mas a história me pareceu linda e me permitiu vê-lo com outros olhos. Assisti ontem, sexta, a ‘Sommarlek’, que no Brasil se chamou ‘Juventude, Divino Tesouro’. É de 1951, o primeiro filme de verão de Bergman, precedendo ‘Mônica e o Desejo’ e ‘Sorrisos de Uma Noite de Verão, ou de Amor’. O próprio Bergman definia o filme como o verdadeiro início de sua carreira. É um rascunho brilhante de temas e personagens. Tudo já está lá, e a atriz Maj-Brit Nilsson é maravilhosa. Jan Troel escolheu o filme para mostrar. Como ele disse, tinha 20 anos e apaixonou-se por Maj-Brit. É impossível não se apaixonar por ela, ainda hoje.