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Cultura

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Luiz Carlos Merten

15 Agosto 2006 | 12h02

Por Luiz Carlos Merten
Nada como a memória para resgatar a história de um festival. Há 34 anos, em 1973, o 1° Festival de Gramado começou com chuva, mostrando só filmes brasileiros. Foi o ano em que Toda Nudez Será Castigada, de Arnaldo Jabor, ganhou o Kikito de melhor filme e Darlene Glória ficou com o troféu criado pela artista Elizabeth Rosenfeld e destinado à melhor atriz do evento. Ontem, o 34° Festival de Gramado, agora de cinema brasileiro e latino, começou de novo com chuva e Darlene Glória está de volta às telas no filme Anjos do Sol, de Rudi Lageman, que será exibido amanhã à noite, no horário do jogo entre São Paulo e Internacional. Uma leva de jornalistas está planejando a descida da serra para assistir ao histórico jogo no estádio Beira-Rio, em Porto Alegre.
Ainda não foi desta vez que os novos curadores, José Carlos Avellar e Sérgio Sanz, conseguiram mudar o perfil de Gramado. Com o objetivo de devolver o festival aos cinéfilos e prepará-lo para o futuro, eles montaram uma agenda de debates que se antecipa interessante, mas o que faz o tititi de Gramado ainda é o glamour do tapete vermelho. O público que se posta diante do Palácio dos Festivais quer ver as estrelas da Globo. Luciano Szafir, que não é exatamente um nome destacado do cinema do País, teve uma entrada de superastro na inauguração. Rocco Pitanga precisou conter o entusiasmno das fãs, que gritavam tanto seu nome que estavam prejudicando a performance da Ospa, a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, em frente ao palácio.
Dois filmes, um latino e outro brasileiro, foram exibidos na primeira noite. O mexicano Mezcal, de Ignacio Ortiz Cruz, abriu a programação. Narra uma história de desamor, morte e vingança, sob uma chuva torrencial e com recurso a um relato cíclico, tudo isso apresentando curiosos poptos de contato com Veneno da Madrugada, dse Ruy Guerra. Mezcal foi uma boa surpresa. Na seqüência, veio o filme mais aguardado da noite, Serras da Desordem, de Andrea Tonacci, nome importante do cinema marginal (o udigrudi) por volta de 1970. O autor do cultuado Bang Bang mistura ficção e falso documentário para contar, de forma nãoi linear, a história (real) de um índio que sobrevive ao massacre de sua gente e atravessa dez anos de andanças pelo Brasil antes de voltar ao convívio dos remanescentes de sua tribo. Serras da Desordem começa bem, mas, depois, a desordem do título parece contaminar o projeto. Ver o personagem ser abusado, no sentido de ser tratado como uma criança incapaz, por todos ao redor, o que inclui os sertanistas que querem ajudá-lo, revela-se mais complicado do que complexo. Serras da Desordem tem problemas. Estão no seu miolo. Em Gramado, na primeira noite, o mérito foi dos latinos.