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Cultura » O homem que resistiu ao neo-realismo

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Luiz Carlos Merten

16 Abril 2008 | 13h24

No fim dos anos 40, o diretor italiano Riccardo Freda veio ao Brasil para filmar as externas de seu filme ‘Guarany’, que não é outra coisa senão a cinebiografia de Carlos Gomes, com Antonio Vilar no papel do compositor. Freda e a mulher, Gianna Maria Canale – uma ex-Miss Itália -, gostaram tanto daqui que, no ano seguinte, voltaram para fazer ‘O Caçula do Barulho’, na Atlântida, com Anselmo Duarte e Gianna, claro. Quando o entrevistei para o livro da Coleção Aplauso, Anselmo me contou que ‘O Caçula’ foi o primeiro filme brasileiro com cenas de briga, e elas foram muito bem filmadas, utilizando tecnologia italiana para filmes de ação. A propósito de Anselmo e Gianna, me desculpem, mas não resisti e, numa conversa de cafajeste, quis saber se ele havia feito juz à sua fama de garanhão, porque a Gianna era um mulherão. Adivinhem… Freda é um diretor ainda negligenciado, mas ele foi muito importante nos anos 40, 50 e 60, primeiro resistindo ao neo-realismo por meio de adaptações literárias e relatos históricos. Freda foi escultor e crítico de arte antes de virar diretor, realizando muitas ‘superproduções’, mas, na verdade, isso foi só uma aparência e ele foi sempre limitado pelos parcos recursos dos filmes que dirigiu. Reichenbach se amarrou na sua concepção visual do inferno, que deve ter sido feita com dois vinténs, em ‘Maciste no Inferno’, com o halterofiliasta Kirk Morris. O cara era muito-muito ruim. Perto dele, Steve Reeves era o Lawrence Olivier da representação, mas que importa isso? O delírio visual de Freda, seu sentido da ação, tudo faz do filme uma experiência que, 40 e tantos anos depois, seduziu um cinéfilo como o autor de ‘Falsa Loira’. Não é deste carnaval que eu gosto do Freda e da sua independência em relação ao neo-realismo, mas meus favoritos são outros – justamente ‘Agi Murad, o Diabo Branco’, do fim dos anos 50 (é com G, não com J, como redigi antes), lançado em DVD como ‘O Guerreiro Branco’, com Steve Reeves como o líder dos cossacos que resistem ao czar da Rússia; e também duas aventuras de espadachim que ele fez, nos anos 60, com Brett Halsey – ‘As Sete Espadas do Vingador’ e ‘O Magnífico Aventureiro’. Este último era uma cinebiografia de Benvenuto Cellini, que Freda transformou num personagem deslumbrante, utilizando-o para refletir sobre o artista como um aventureiro. São todos filmes que fizeram meu imaginário e que eu via, no antigo Carlos Gomes, em Porto Alegre, simultaneamente com os filmes de Antonioni, Visconti e Fellini, que, esses sim, eram reconhecidos pela crítica como grande cinema. Confesso que morro de vontade de rever um filme do Freda, em especial. É ‘Teodora, a Imperatriz do Bizâncio’, que ele fez, lá por 1953/54, com (e para) Gianna Maria Canale. Com adultério ou não, ambos viveram uma linda história de amor. E de amor pelo cinema popular, inclusive.