Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Raoul Walsh (2)

Cultura

Luiz Carlos Merten

16 Abril 2008 | 12h54

Produzido pelo astro Clark Gable, ‘Este Homem é Meu’ talvez seja o mais estranho dos westerns. No original, chama-se ‘The King and Four Queens’, ‘O Rei e Quatro Rainhas’, e mostra pistoleiro disputado por quatro mulheres, neste rancho que tem uma guardiã (Jo Van Fleet). Walsh adota o ponto de vista feminino para contar a história e, numa cena, chega a mostrar Barbara Nichols invadindo o recinto em que Clark Gable toma banho nu, o que não deixa de ser a inversão de uma cena que o cinema (e Hollywood…) geralmente focaliza ao contrário (sendo o homem que espia a mulher que se banha nua). ‘Este Homem É Meu’ é de 1956 e pouco antes, naquele mesmo ano, Walsh fez ‘The Revolt of Mamie Stover’, sobre esta aventureira – a descarada Jane Russell – que, nos Mares do Sul, precisa se impor num ambiente masculino. Mamie Stover vive cercada de ‘meninas’, numa casa que também tem uma guardiã – Agnes Moorehead – e, como as garotas de ‘The King and Four Queens’, ela também poderia proclamar que este homem (Richard Egan) ‘é meu’. Richard Egan foi um ator perfeito para o cinema de Walsh. Casca-grossa, no sentido da virilidade, só ele para fazer frente a Jane Russell, que chegou a formar dupla com Marilyn Monroe. Os críticos diziam que, uma loira e outra morena, eram ambas diferentes versões do mesmo tipo de mulher e tanto isso é verdade que MM foi a primeira escolha da empresa produtora Fox para o papel de Mamie Stover, mas Jane era muito mais peituda, em todos os sentidos, do que Marilyn. Mais tarde, Ester também irá até o rei, clamando por seu povo e, mais tarde ainda, Suzanne Pleshette, em ‘Um Clarim ao Longe’, vai tomar a dianteira de que quer aquele homem (o tenente Matt Hazard, interpretado por Troy Donahue). Mais do que descaradas, as mulheres de Walsh eram determinadas e lutavam por sua dignidade. Acho que é isso que Carlos Reichenbach, no fundo, admira em walsh – suas garotas do ABC e a falsa loira também lutam por sua dignidade. De volta a Walsh, Yvonne De Carlo é o exemplo extremo em ‘Band of Angels’ – uma mestiça que, pela cor da pele, vira escrava livre nos EUA pré-Guerra Civil. O próprio título é exemplar – a escrava livre dá bem uma idéia da papel da mulher numa sociedade controlada pelos homens, papel contra o qual ela se rebela. As mulheres de Walsh se rebelam – Virginia Mayo, Joan Collins, Barbara Nichols, Rhonda Fleming, Suzanne Pleshette, Mae West. Era danado de bom, aquele velho. E, ao contrário de outro mestre que foi seu contemporâneo, John Ford, Walsh adorava os amplos movimentos de câmera. O da abertura de ‘O Mundo em Seus Braços’, que detalhei para Reichenbach – é verdade que acertando o nome do ator, Gregory Peck, e errando o da atriz, que é Ann Blyth – é uma loucura. Tentem ver, e depois me digam se não é.