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Cultura » Os melhores de 1968

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Luiz Carlos Merten

16 Dezembro 2007 | 13h58

Que legal que vocês estão gostando das listas de melhores do Raymond Benson na revista ‘Cinema Retro’, especializada em filmes dos anos 60 e 70. Como já disse, comprei seis números que encontrei naquela livraria do Hollywood Boulevard e só descobri em casa que deviam haver outros, pois dos melhores de 1965 saltei para os melhores de 68, o que significa que devem haver números (que não estavam à venda) com os melhores de 1966 e 67. As listas não são para gostar, no sentido de levá-las ao pé da letra. Faltam filmes essenciais e outros nem deveriam estar ali (eu acho). O bom é o estímulo. Me peguei pensando em todos aqueles filmes (e nos que faltavam). Como o crítico do ‘Ratatouille’, sorvi a minha madeleine e embarquei numa viagem em busca do tempo perdido. Fiquei pensando na primeira vez que vi tantos daqueles filmes. Tentei me lembrar como eu era aos 14, aos 15, aos 18 anos. Aliás, tenho de confessar que ontem tive um choque. Já contei que sábado e domingo são meus dias de proletário. Ando sempre de táxi, mas nestes dias pego o ônibus. Ontem, entrei num e uma adolescente se levantou e me ofereceu o lugar. Achei atencioso da parte dela, mas fiquei atordoado e me caiu a ficha – ‘Soy viejo’, como me dizia a todo momento um velhinho alemão com quem viajei pelo Peru, há mais de 30 anos. O cara participava dos mesmos grupos que Doris, minha ex-mulher, e eu, sempre exigindo atenção especial porque, como dizia, era velho. Ó céus. O tempo passa, o tempo voa, mas eu ainda me sentindo em forma.
Vamos aos melhores de 1968.
1. The Heart is a Lonely Hunter’ (O Coração é Um Caçador Solitário), de Robert Ellis Miller, adaptado do romance de Carson McCallers, autora que o cinema sempre tratou muito bem. Fred Zinnemann fez ‘Cruel Desengano’ (The Member of the Wedding) e este é um dos raros filmes dele que me impressionam de verdade. John Huston também dirigiu ‘Os Pecados de Todos Nós’, baseado em ‘Reflections in a Golden Eye’ e, para mim, é o filme divisor de águas na carreira do grande diretor. No filme de Ellis Miller, Alan Arkin é o surdo-mudo que vai morar com uma família pobre, no Sul dos EUA, e opera uma mudança na vida de todos, especialmente na da jovem Sondra Locke. Não creio que seja um grande filme, mas nunca o esqueci, menos por Arkin e Sondra que por Chuck McCann, que faz o amigo retardado (com o perdão do politicamente incorreto) do surdo/mudo. McCann faz um personagem que tem o mesmo ‘pathos’ do louquinho de ‘La Strada’ (A Estrada da Vida), do Fellini. É mole?
2. ‘O Leão no Inverno’, de Anthony Harvey, com Peter O’Tooole e Katharine Hepburn (ela ganhou seu terceiro Oscar pelo papel). O ponto do filme é que mesmo as grandes famílias (o rei Henrique II e a rainha Leonor de Aquitânia) são, ou podem ser, disfuncionais. O roteiro de James Goldman, também vencedor do Oscar (como a partitura de John Barry), imagina uma lavagem de roupa suja na véspera de Natal, quando a família se reúne e o rei anuncia que vai escolher seu herdeiro. Entre os filhos, estão Anthony Hopkins e Timothy Dalton (que virou depois, para mim, o pior 007 do cinema). O curioso é que O’Toole já havia representado Henrique II em Becket, de Peter Glenville, que Raymond Benson já havia considerado um dos melhores do ano em 1964.
3. ‘Era Uma Vez no Oeste’, de Sérgio Leone. Para dizer quanto o filme é maravilhoso, Benson esclarece que é quase tão bom quanto ‘Três Homens em Conflito’ (O Bom, o Feio e o Malvado), que o diretor havia feito em 1966 – seu último filme com Clint Eastwood. Como já disse, não tenho a lista de melhores do Benson naquele ano, mas posso imaginar, depois de ler isso, que os três homens (Clint, Lee Van Cleef e Eli Wallach) estivessem nela.
4. ‘O Planeta dos Macacos’, a primeira versão, claro, de Franklin J.Schaffner, com Charlton Heston. Achei o remake de Tim Burton o fim e, desde então, não consigo acertar o passo com ele. Minha expectativa é que isso ocorra com ‘Sweeney Todd’, que, aliás, a Warner só lança aqui no começo de fevereiro.
5. ‘The Producers’, de Mel Brooks, que foi lançado no Brasil como ‘Primavera para Hitler’, tendo originado o musical que Miguel Falabella e Vladimir Brichta cantam em português. ‘Primavera contra Hitler’ ganhou o Oscar de roteiro e até onde me lembro, embora irregular, tinha momentos de gênio. O que não esqueco é justamente o número ‘Springtime for Hitler’, que era hilátio.
6. “Romeu e Julieta’, a versão de Zeffirelli, com Leonard Whiting e Olivia Hussey. Não sou o maior fã do mundo, mas as adaptações de Shakespeare, no começo da carreira do diretor, tinham certa classe (e ‘A Megera Domada’, com o casal Burton/Taylor, era legal). Raymond Benson define o filme como ‘lushly entertaining’.
7. ‘O Bebê de Rosemary’, o clássico de Roman Polanski em que Mia Farrow gera o filho do Diabo. Vocês vão ver que, a partir daqui, a lista vai dar um salto de qualidade.
8. ‘Beijos Proibidos’, de François Truffaut. Não vou dizer mais nada, só acrescentar que, além da voz de Charles Trenet (em ‘Baisers Volés’, a canção-tema), o filme tem Delphine Seyrig como Madame Tabard.
9. ‘2001, a Odisséia no Espaço’, de Stanley Kubrick. Eu invertia tudo e colocava a ‘space opera’, como dizem os norte-americanos, no topo da lista.
10. ‘O Submarino Amarelo’, de Charles Durning, animação baseada nos Beatles. Não sei se o filme inventou, mas em todo caso, é um marco do visual psicodélico no cinema. E tem ‘Lucy in the Sky with Diamonds’ e ‘All You Need Is Love’. Com licença, mas eu acho que vou rever ‘Across de Universe’ agora de tarde. Em homenagem a Raymond Benson e pelo meu prazer pessoal.