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Luiz Carlos Merten

26 Março 2007 | 14h34

Falei hoje en passant do Bergman, aqui no blog, ao citar meu encanto pela homenagem que Monique Gardenberg prestou a Gritos e Sussurros no deslumbrante final do show de Marina, no Teatro do Ibirapuera. Aproveito para contar que, meu editor, Dib Carneiro Neto, me passou, a título de informação, um artigo de Joe Queenan no Guardian. Uma caixa com 38 DVDs de Bergman acaba de sair na Inglaterra e o jornal pediu ao crítico que visse todos. Ainda não li, mas numa olhada rápida, na diagonal, já deu para ver que Queenan considerou a tarefa um convite à depressão. No final, ele diz que ainda está deprimido. Dá para lembrar a cena de Santiago, o filme de João Moreira Salles que vai virar um divisor de águas na história do cinema documentário brasileiro – haverá um antes e depois, vejam o filme que terá sessão especial na quinta e depois me digam se não –, quando ele lembra Bergman e João o faz repetir a cena diversas vezes, dizendo que a vida é podridão e sofrimento sob um céu indiferente ao desespero humano. Quando eu era garoto, em Porto Alegre e, depois, quando comecei a escrever sobre cinema, havia aquele crítico, o Paulo Fontoura Gastal, P.F. Gastal, que também se identificava com o pseudônimo Calvero, que amava o Bergman sobre todas as coisas. Gastal se exasperava com o aroubo juvenil da minha geração. Nós, que éramos jovens, queríamos outras coisas. Gastal morreu há anos. Onde quer que esteja, ele gostará de saber que venceu. Aliás, venceram. O Bergman e ele. Devo ao mestre sueco algumas das minhas maiores emoções no cinema. Não senti nada quando vi Morangos Silvestres pela primeira vez, por volta de 1960. Hoje é um de meus filmes preferidos. Amo Gritos e Sussurros e Sarabanda. Se vocês me perguntarem o que é o cinema, não vou dar nenhuma definição. Vou dar um exemplo, a cena de Morangos Silvestres em que o velho professor passeia no jardim da sua infância, vê o passado – dentro da técnica bergmaniana de fazer passado e presente coexistirem nas mesmas imagens, lição que absorveu de outro sueco, Alf Sjoberg, em Senhorita Júlia – e, dentro dele, a mulher amada (e perdida). Quando Victor Sjostrom cai naquele gramado chamando, baixinho, Sara! Sara!, aquilo é o cinema. Grande cinema!