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Tiradentes (5)/Vaca atolada

Luiz Carlos Merten

31 Janeiro 2016 | 00h46

Embora o post ainda se refira à Mostra de Tiradentes, não estou mais em Minas. Escrevo de minha casa, em São Paulo. Tenho compromissos amanhã pela manhã e à tarde, pautas do jornal. Deixei Tiradentes pela manhã e fiquei algumas horas em BH porque queria ver, no CCBBB de lá, a retrospectiva de Iberê Camargo que chega aqui somente daqui a alguns meses. Viajei no início da noite, saí para jantar (no Consulado da Bahia, uma deliciosa muqueca) com meu amigo Dib Carneiro e vim para casa na expectativa de que já encontraria o e-mail da assessoria da mostra mineira com os vencedores da Aurora deste ano. Para minha decepção, o e-mail ainda não chegou, mas isso me permite falar sobre o programa de ontem. Punha fé no Animal Político de Tião, último exibido na competição deste ano. Um filme cuja protagonista é uma vaca, integrada a uma família. Ela tem tudo para se considerar feliz, mas sente um aperto, uma angústia. Lá pelas tantas conscientiza-se de que não é humana e cai no mundo em busca dos seus, ou de respostas para o seu vazio existencial. Estava adorando – a vaca. Quando ela vira bípede e obviamente existe um ator, vestindo uma máscara, o encanto dissipou-se – para mim. Não pude deixar de pensar no Balthazar de Robert Bresson, A Grande Testemunha, nem no Platero de Juan Ramón Jimenez. Balthazar, o asno, vê o mundo com seus grandes olhos e sofre como Cristo na cruz – Bresson, afinal, era jansenista -, mas o grande diretor não o humaniza, ou melhor, não o antropomorfiza. Para isso existe a personagem de Anne Wyazemsky, que foi, por um breve período, entre Anna Karina e Anne-Marie Miéville, a senhora Godard. Assim, um tanto decepcionado, dei-me conta de que terminei gostando bem mais de Jovens Infelizes ou O Homem Que Grita não É Um Urso Que Dança. Em primeiro lugar, preciso dizer que conheço o diretor Thiago B. Mendonça desde que foi, por um breve período, repórter do Caderno 2. Thiago foi fazer cinema, teatro e, em Jovens Infelizes, faz um mix dos dois. Um grupo de teatro encena uma peça num cabaré e, ao mesmo tempo, seus integrantes, devorados por questões políticas, sexuais, existenciais, misturam-se aos protestos de rua, contra a Copa. Muitos filmes brasileiros recentes, na própria Aurora, criam espaços em conflito ao integrar/contrapor, ‘nas bordas’, documentário e ficção. Thiago é mais visceral. O que está em jogo é arte e vida, a arte de viver e a necessidade vital da arte. Tenho de dizer que me ausentei do Cine-Tenda durante o filme, mas voltei, e foi a melhor coisa que fiz. A vitalidade de Jovens Infelizes, em contradição com o título, me apanhou, cativou. Essa ‘teatralização’ do real é uma coisa muito forte que também encontro no cinema de Helena Ignez. Helena foi mulher de Glauber. A outra mulher de Glauber, Paula Gaetán, estava em Tiradentes. Encontrei-a depois da sessão. Ela também gostou de Jovens Infelizes. Pode não significar nada, mas para mim significa muito. Vou checar meus e-mails para ver se chegou o resultado da premiação da Mostra de Tiradentes. Senão, deixo para manhã. Estou cansado.