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Tiradentes (4)/À sombra de Rivette

Luiz Carlos Merten

29 Janeiro 2016 | 14h39

TIRADENTES – Participei hoje, como convidado, do debate sobre o filme A Noite Escura da Alma, do cineasta baiano Henrique Dantas, de quem já tinha visto aqui em Tiradentes Sinais de Cinza sobre Olney São Paulo. Os dois filmes abordam a violência do Estado durante a ditadura militar (e civil). Na ausência de material de época, Henrique recorre à performance. Hoje, ele explicou que o carlismo – a ditadura pessoal de Antônio Carlos Magalhães na Bahia – apagou a memória e eliminou arquivos, como se não tivesse havido ditadura no Estado. Houve, e a repressão foi brutal, conforme os testemunhos recolhidos por Henrique, entre outros o da também cineasta Lúcia Murat. O filme começou me incomodando, quer dizer, um filme desses tem de ser incômodo, mas explico. Era como se, na civilização da imagem, o discurso, a palavra, não fosse suficiente e necessitasse de um suporte. As imagens plásticas, encenadas, me lembraram a velha acusação de Jacques Rivette contra o travelling avante que o italiano Gillo Pontecorvo faz sobre a personagem de Emmanuelle Riva em Kapò. De l’abjection, Da abjeção. Sentiria eu abjeção pelas performances (o esteticismo?) de Henrique? Reconciliei-me com o filme via Roland Barthes – a validade do discurso crítico – e espero que Henrique consiga um distribuidor para seu filme, para que a gente possa retomar a discussão em São Paulo. Ave, Henrique. Mas eu descia do palco quando Cleber Eduardo, curador aqui de Tiradentes, me abordou, perguntando se eu tinha poderes mediúnicos. Porque enquanto fazia minha exposição inicial, estava morrendo justamente o grande Rivette, aos 87 anos, de Alzheimer. Tenho meus ídolos da nouvelle vague. Godard, por certo, Claude Chabrol, que me parece maior que François Truffaut, por exemplo – especialmente no bloco de grandes filmes por volta de 1970, Que La Tê Meure, La Femme Infidèle e O Açougueiro/Le Boûcher – e Jacques Rivette, por mais que goste de Eric Rohmer e de seus ‘contos’. O que me atrai em Rivette é a estrutura romanesca, a forma como ele adapta os relatos de Balzac e Henry James (desse último, são contos) para fazer seus filmes longuíssimos. Paris nos Pertence, A Religiosa, A Bela Intrigante. Gosto, mas o ‘meu’ Rivette é Ne Touchez pas la Hache, Não Toque no Machado, que ele adaptou de Balzac, A Duquesa de Langeais, que já havia dado origem a um famoso filme dos anos 1940, de Jacques de Baroncelli, com Edwige Feuillère. Jeanne Balibar é maravilhosa em Ne Touchez pas…, que vi em Berlim , em 2007 (ou 2008), mas o filme é de Guillaume Depardieu, filho de Gerard, como o general de Montriveau, personagem recorrente (está em dois livros, pelo menos) da Comédia Humana. Naquela época já tinha o blog e, com certeza, deve ser possível encontrar o, ou os textos antigos que escrevi sobre o filme (e Depardieu filho). Eu amava Guillaume, Pola X e Ne Touchez pas la Hache. Acho muito lindo, e triste, a parte, no livro de Depardieu pai, em que ele conta como as pessoas se escandalizaram por ele não haver chorado na morte do filho e ter chorado tanto na morte de seu gato. O filho insurgiu-se contra ele para seguir seu caminho, era um rebelde, seu igual. No fundo, morreu uma parte dele com Guillaume. Mas o gato era seu confidente, sabia mais sobre ele que qualquer pessoa – mas e a consciência disso? -, inclusive sobre as dificuldades com Guillaume. A morte de Rivette me entristece. Godard fica cada vez mais isolado como o ‘sobrevivente’ da ex-nova onda. E eu penso comigo – onde está a nova onda de hoje? No cinema de Christophe Honoré e Louis Garrel, ou aqui em Tiradentes?