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Tiradentes (3)/Uma certa cortina e a voz de quem precisa falar

Luiz Carlos Merten

28 Janeiro 2016 | 17h33

TIRADENTES – Tem tão pouca gente interessada nos posts de Tiradentes, ao contrário de outros temas do blog, que me sinto desestimulado. Además, como diriam os castelhanos, tenho tanta coisa (filmes, debates, leituras, matérias) que só mesmo o desejo de alimentar o blog me estimula a seguir adiante. Tenho pouquíssimo tempo. Preciso ver o filme das 6, na Mostra Transições, porque amanhã sou o ‘crítico’ convidado no debate sobre A Noite Escura da Alma. Repassando as sessões de ontem, vi o novo filme de Petrus Cariry, também na Mostra Transições. No final, comentei com Luciano Ramos – não sei se gostei de Clarissa ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois, mas gostei de ter visto o filme. Tenho assistido a tantos documentários que estava precisando de um banho de ficção. Gosto do cinema de Petrus – O Grão, Mãe e Filha. Ambos os filmes compõem uma trilogia sobre a morte com Clarissa, mas não poderiam ser mais diferentes. Todos. Mãe e Filha já difere da representação do sertão de O Grão, e Clarissa é outra coisa, um filme de gênero, situado na classe alta. Começa e termina com cenas fortíssimas de sexo e, durante essas pontas, a personagem de Sabrina Greve (ótima) tem de se purgar do marido, do pai, do irmão morto. Mais do que suspense, Petrus cria cenas de terror, mas cheguei ao final em dúvida se Clarissa, com todo aquele sangue derramado, se liberta dos fantasmas que a atormentam. O curioso é que caiu um toró na hora e o som da chuva interferiu na trilha de Petrus. Teve até um efeito 3-D. O vento sacudiu uma cortina que dava para ficar em dúvida se era no Cine-Tenda ou no filme. Que bizarro! Vi também o segundo filme de índio da Aurora, Taego Ãwa, de Henrique Borela e Marcela Borela. Com alguma ressalva, havia gostado, mas achei hoje o debate tão meia boca – muita falação, pouca discussão – que meio que esfriei. E me incomodou muito o fato de o cacique Ãwa estar na mesa e todo mundo ficar dizendo ‘Daqui a pouco ele pode nos dizer…’ O tempo ia passando e nada. Finalmente, aos 46 do segundo tempo ele falou (pouco). Fico meio de saco cheio com esses filmes que usam os índios para expressar as angústias de autores. O próprio Serras da Desordem, por mais que respeite e admire Andrea Tonacci, tem isso. Carapirú fala e não é traduzido – para passar seu isolamento, e o do diretor. Aqui, ó. O diretor há dez anos dá entrevistas para explicitar seu isolamento e eu de minha parte gostaria de saber o que diz Carapirú. Ele, como o índio na mesa, é pessoa, não personagem. Seria personagem na ficção. Mesmo assim, sói tenho de agradecer a Henrique e Marcela por legendarem as falas dos Âwa. E o filme tem cenas ótimas – quando os índios se pintam, ou quando vão à caça do cervo. Há ali um olhar crítico pungente. Os remanescentes da tribo não sabem se pintar nem mais caçar. As flechas não são certeiras e o bicho estrebucha diante da câmera, com o olho dilatado, antes de morrer afogado. Não estou cobrando correção com o sofrimento do animal, mas até poderia. Sempre ouvi falar no respeito do índio pela floresta e suas criaturas. Taego Ãwa me impressionou, e a cobertura da imprensa sobre o cerco aos índios, nos anos 1970, incluindo manchetes de jornais, também.