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Tiradentes (2)/Nova divagação sobre o tempo ou Uma História do Vento

Luiz Carlos Merten

27 Janeiro 2016 | 18h00

TIRADENTES – Assisti hoje ao debate de Aracati e fomos, em grupo, almoçar no Tempero da Ângela, em Bichinho. Maria Augusta Ramos, Luciano Ramos, a Cecília (Barroso, de Brasília), Rafael (Carvalho, de Salvador) e eu. Maria Augusta perguntou ao motorista do táxi de onde vinha o nome. Sua resposta poderia ser uma das piadas cruéis que o apresentador Chris Rock promete fazer na festa do Oscar, mesmo que ele seja o único negro a comparecer à festa da Academia. Nessa região de Minas havia uma fazenda imensa, com muitos escravos. Quando viajava, o proprietário dizia ao feitor – “Cuida dos meus bichinhos.” Gostaria de rir, de fazer comédia (a politesse do desespero, como me disse Jaco Van Dormael, diretor de O Novíssimo Testamento), mas juro que engasguei e uma lágrima me veio. “Meus” bichinhos! O almoço no Tempero da Ângela foi delicioso, como sempre. Pergunto-me, agora, ao contar a história, se, em nome da correção política, terei de cortar minhas idas a Bichinho. Cortar, não sei, mas irei consciente. Cheguei ao hotel e enviei meu texto do dia para o Caderno 2 de amanhã. Estava excepcionalmente quente, um sol de rachar. E agora o mundo está despencando lá fora. Começou uma chuva forte. Tudo isso é tergiversação. Quero falar de Aracati, o belo documentário de Aline Portugal e Júlia de Martino que passou ontem à noite (terça, 26), na Mostra Aurora. Há dois anos, participei de um debate, aqui em Tiradentes, sobre um filme que se chamava A Mulher Que Amou o Vento. Aline e Júlia amam o vento. Aracati é um projeto antigo e, há quatro anos, elas apresentaram aqui o curta Estudo para o Vento. Já era o mesmo vento, o Aracati, que sopra no Ceará e atravessa centenas de quilômetros da área do Estado. O Aracati sopra numa época do ano. Prenuncia chuva ou seca e possui uma característica. Do mesmo jeito que começa ele para, instantaneamente, e é tão pontual que as pessoas marcam compromissos paras depois do vento (como parta depois das chuva nas capitais do Norte). Como se filma o vento? Por meio de seus efeitos na paisagem, nos objetos e pessoas. Salvo duas ou três cenas (ou é só uma?), Aline e Júlia usam o plano fixo, mas dentro dele cataventos, sombras de nuvens e galhos e ramagens de árvore criam o movimento. As voltas regulares do cata-vento nos lançam no ciclo do tempo. O vento pára, mas o tempo continua. Logo na abertura, há um plano insólito, fantástico, de um foguete numa base. Ele sai do hangar, puxado por uma máquina-robô. Parece irreal. O foguete é um símbolo de ciência, de progresso. Como o vento, o progresso interfere nas vida das pessoas. O vento espalha ás mágoas, diz o caboclo. Os ventos do progresso desviam o leito do rio, destroem cidades. De uma igreja, sepultada pela água, percebe-se só a cruz no alto da torre principal. Jia Zhang-ke não tem feito outra coisa senão nos mostrar os efeitos do desenvolvimento da China moderna às custas da degradação física e humana da China ancestral. Os sertanejos que ainda resistem criticam o admirável mundo novo – violência das cidades, culto do impossível (o cordel da batalha do lagarto contra a cobra). Questionam o Big Bang – quem garante que foi assim? Assim como? Para voltar ao tema da Mostra de Tiradentes este ano – Espaços em Conflito -, dou-me conta de que os espaços expressam, sim, as fricções do Brasil e do mundo na atualidade, mas ao espaços está se superpondo o tempo. Como Urutau, Aracati é sobre o tempo. Movimento, transformação, destruição, recriação. Aracati tem a cara da Mostra Aurora. Aline e Júlia são iniciantes no longa, anunciam novos ventos no cinema brasileiro. por falar em ‘vento’, basta digitar a palavra que me vem à memória Uma História do Vento, de Joris Ivens e Marceline Loridan Ivens. O lendário Ivens e sua companheiras atravessaram a China filmando – e perseguindo o vento, que transformaram em símbolo da fragilidade da vida humana e das mudanças econômicas e sociais no mundo contemporâneo. Na Colômbia, lembrei-me muito da Mostra e das caipirinhas que tomei com Marceline, viu Renata (de Almeida)? Marceline foi à Mostra, levada (ou trazida) por Leon Cakoff. Mostrou os grandes filmes do companheiro. Na Colômbia, comprei um livrinho (no tamanho) que devorei de um fôlego. Et Tu n’es pas Revenu. Marceline, tão alegre, tão risonha, conta o episódio mais terrível de sua vida. A família foi levada para o campo de concentração. A mãe o irmão morreram. Um dia seu grupo de prisioneiras cruzou com o do pai. Abraçaram-se no desespero. Foram separados a pancadas e ela, chamada de puta e cadela judia. O pai, Marceline nem sabe como conseguiu – mas isso me lembrou O Filho de Saul -, lhe escreveu um bilhete. Disse que ele talvez não regressasse, mas ela, que era jovem, regressaria – ao mundo, à vida. Que não perdesse a esperança. Ela regressou. Fez, com Joris, filmes lindos como Une Histoire du Vent, que eu espero que Aline e Júlia conheçam (e, se não, que vejam). Escreveu esse livro que, a par de ser um testemunho, é uma obra de alta literatura. Não tenho registro de que tenha saído no Brasil – mas deveria. Só viria enriquecer a bibliografia da Mostra.